sábado, 26 de novembro de 2016

O Astrágalo - Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg

"... o fio tecido entre ele e eu desde aquela noite no meio das árvores ir-se-ia consolidando e enrolando, ele, eu... ele, eu... ele, eu... Pela primeira vez, não me apetece saber logo o final, nem sequer a continuação, desta aventura. Este minuto é verdadeiro e vivo, e estico.o pela eternidade..."
'O Astrágalo', Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg

Surpresa irresistível na Amadora BD 2016 que me fez voltar a olhar para esta história, depois da adaptação cinematográfica, e ganhar amor a este relato tão humano, intimista e apaixonado da vida da autora Albertine Sarrazin. 

Anne é uma rapariga de 19 anos que parte um osso do tornozelo chamado astrágalo, ao saltar a parede da prisão onde está presa por assalto. É salva por Julien, um ladrão como ela, e vai esconder-se, sofrer, rebelar-se, fugir constantemente. Mas nada lhe importa: está loucamente apaixonada por Julien. São jovens fugitivos, livres na sua vida de crime e selvagens. Qual será o preço da liberdade nesta história de amor?

'O Astrágalo', o osso partido que impede Anne de andar e viver sozinha, de ser livre e independente, é o único título possível para esta sua aventura após a fuga da prisão. Julien ajuda-a a fugir, a receber todos os cuidados necessários e a descansar, deixando-a em casa de amigos e conhecidos, levando-a a conhecer personagens inimagináveis que a fazem desesperar por não poder ter a sua vida normal.


É por isso a história de uma menina-mulher em fuga, contada na primeira pessoa; da dor física da sua recuperação e da dor ainda maior de ser um encargo para todos. Mas sobretudo do seu sofrimento perante os longos períodos sem ver Julien, pela impossibilidade de saber se ele sente o mesmo que ela. Ela, que antes de tudo isto - do maldito osso quebrado - vivera uma paixão enorme por Rolande, uma colega da prisão, que deseja rever depois do pesadelo em que a sua vida, de certa forma, se tornou.

Mas Julien está sempre lá, desde aquele momento em que a encontrou à beira da estrada, magoada, e a levou de volta à vida. Com ele sente-se inteira, capaz de tudo, numa liberdade eterna. Não há prisão física que a separe do amor que sente por este homem igual a ela, ladrão como ela, que tudo faz para sobreviver numa sociedade autoritária do pós-guerra em França.

E Anne escarrapacha esta sua liberdade interior na cara de todos. Ou melhor, Albertine fê-lo, antes do Maio de 68 e com toda a garra dos seus 19 anos na altura. Vivera o seu romance com Rolande, prostituira-se, procurara ajudar Julien na sua vida criminosa. Sempre inconformista, sempre ousada, sempre uma sobrevivente.


O romance de Albertine Sarrazin será certamente ainda mais tocante, trata-se afinal de uma semi-autobiografia. O que os autores concretizam nesta banda desenhada é dar uma dimensão ainda mais visual à aventura de Anne e Julien, com um traço muito simples, que joga muito bem com o preto e o branco nos desenhos e nos vários momentos da história. A beleza de cada ilustração, o contraste entre o dia e a noite, a intensidade dramática dos encontros de Anne - tudo isso é brilhantemente descrito entre a adaptação das palavras e o que nos é mostrado em imagens.

Há uma força muito grande nesta história, quase inexplicável, que nos puxa do início ao fim e nos emociona no final surpreendente, que gostaríamos de não ter de presenciar. Porque eles são ladrões, criminosos, mas a sua paixão e a sua liberdade impelem-nos constantemente para eles, fazem-nos simpatizar com a sua dor, a sua força, a sua rebeldia; o seu amor.

É talvez das histórias de amor mais estranhas e livres da história da literatura, e ainda assim das mais bonitas. Em novela gráfica, só sentimos de forma ainda mais intensa e íntima o seu significado.

sábado, 29 de outubro de 2016

O Agente Secreto - Joseph Conrad

"Toda a paixão está agora perdida. O mundo é medíocre, mole, sem força. E a loucura e o desespero são uma força. E força é um crime aos olhos dos tolos, dos fracos, e dos patetas que mandam."
'O Agente Secreto', Joseph Conrad

É talvez das obras menos célebres de Conrad e das mais afastadas da sua 'biblioteca' habitual, segundo os muitos experts pelo mundo fora. Lê-lo pela primeira vez neste drama semi policial é, no entanto, conhecer a sua escrita cuidada e o poder das reviravoltas numa história aparentemente simples.

O Sr. Verloc é um agente secreto de embaixadas estrangeiras em Londres e da polícia inglesa, infiltrado no movimento anarquista e revolucionário local para fornecer informações e provocar actos terroristas com o objectivo de levar a polícia a actuar de forma mais dura sobre estes movimentos. Apaixonado por Winnie, a sua esposa, e simpatizado com o seu irmão Steve, de quem ela cuida diariamente, o Sr. Verloc vive feliz numa loja de fachada da sua actividade política. Quando é ordenado a fazer explodir um local importante da capital inglesa, contudo, nem tudo corre bem neste acto terrorista, que vai impôr uma mudança nas vidas de todas as personagens.

"Naquela loja de artigos duvidosos cheia de prateleiras pintadas de um castanho baço, que parecia devorar o brilho da luz, o círculo de ouro da aliança na mão esquerda da Sr.ª Verloc brilhou excessivamente com a glória imaculada de uma jóia, retirada de um tesouro esplêndido, ao cair no caixote do lixo."

Conrad é mais descritivo e sensível na primeira parte do romance, antes do atentado em Greenwich - símbolo do espírito e do poder científicos no início do século XX -, dando-nos a conhecer todas as personagens de relevo para a trama, a relação de Verloc com a esposa e desta com o irmão cadenciado, os anarquistas e únicos 'amigos' de Verloc, e ainda este estranho pedido de criação de um momento impactante para obrigar à actuação da polícia.

Depois do atentado, parece ganhar outra vida. A sensibilidade deixa-se um pouco de lado: há crueza, há vingança, há um despojo total de toda sobriedade, de toda a submissão a que a aceitação de uma vida menor obriga. A dor e a perda da vontade de viver pode transformar até o ser humano mais brando e submisso num agitador. E Conrad mostra-nos esta transformação tão real, tão credível, que faz valer em si mesma toda a leitura. Como se estivéssemos dentro de uma tragédia à moda do teatro.

Aqui não há heróis, não há heroísmos. Há uma aventura, há acção, há um acontecimento central em que se centra toda a obra - e há sobretudo um grande domínio sobre o ritmo, que Conrad gere de forma muito interessante. Mas Verloc está longe de ser uma personagem a que nos agarremos do início ao fim. É mais um no mundo de loucos, mais um que erra e falha como todos os outros. E o objectivo de agitação da sociedade, quando um atentado não corre exactamente como previsto, falha também.

Não sei se Conrad terá algo de anárquico dentro de si e que transponha para a sua obra. A sua preocupação parece extrapolar a questão individual e mesmo política (e mesmo desta história, que se baseia num acontecimento verídico), o que a meu ver ganha alguns pontos. A intemporalidade desta obra assusta igualmente pela proximidade à forma como ainda são levados a cabo estes atentados nos dias de hoje.

'O Agente Secreto' deixa sobretudo a curiosidade de conhecer melhor Conrad e descobrir a sua obra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Daytripper - Fábio Moon e Gabriel Bá

"Só quando aceitas que vais morrer é que consegues finalmente libertar-te... e aproveitar a vida ao máximo."
'Daytripper', Fábio Moon e Gabriel Bá

As histórias sobre a vida têm lugar em todos os tipos de literatura, mas é talvez na banda desenho ada que conseguem ganhar, literalmente, mais expressão visual. 'Daytripper' é um dos exemplos máximos deste poder das novelas gráficas, levando-nos para novos mundos, como viajantes no dia-a-dia de várias realidades alternativas.

Brás de Oliva Domingues é filho de um escritor famoso e também ele escritor de obituários para um jornal, lidando assim com a morte diariamente. Mas nunca está preparado para as mortes que o rodeiam - e muito menos para a sua própria morte. Acontece que, no final de cada capítulo, Brás morre, de uma forma ou de outra, na infância ou na velhice, depois de uma vida cheia de momentos felizes ou com tudo por concretizar.

Cada capítulo é como uma vida alternativa de Brás, que com as suas inúmeras mortes continua a ser das personagens com mais vida e personalidade que conhecemos. Há histórias de sucessos e fracassos de romances, aventuras, esperanças, muitas mudanças e desilusões. 'Daytripper' é um "e se?" constante, em que Brás vai crescendo e a sua vida evoluindo, como se cada morte possível fosse um caminho não escolhido. Talvez apenas uma delas tenha acontecido, ou talvez sejam todas fruto da sua imaginação ou das possibilidades da vida terrena.



Os percursos alternativos lidam sempre com percepções, reacções aos momentos que se vivem e sobretudo com escolhas de Brás, como se cada uma delas levasse a um caminho de morte diferente. A relação com o pai às aventuras com o amigo Jorge, um amor antigo à descoberta do amor da sua vida,  o nascimento do primeiro filho, episódios da sua infância e (re e des)encontros pouco felizes, tudo faz parte da vida e tudo espelha o que pode ter sido a existência de Brás (ou a que aqui pretende relatar numa espécie de memória ficcional).

Fábio Moon e Gabriel Bá são dois irmãos gémeos com paixão por contar histórias e pela banda desenhada, o que é claramente visível nesta viagem única e surpreendente, recheada de cenários bem brasileiros, de cores maravilhosas e de ilustrações que remetem constantemente para o mundo do sonho e da imaginação. Esta unicidade e este foco num indivíduo como muitos outros, com uma vida mais ou menos preenchida e tudo menos perfeita, foca-se no entanto em questões bem universais e com as quais facilmente nos identificamos.

O que sobra é uma sensação de busca constante por algo que nunca conseguimos alcançar - a essência da vida. Sobra uma vontade tremenda de aproveitar cada dia como se o amanhã fosse um caminho possível de aproximação ao nosso derradeiro dia na Terra. E tudo parece redutor quando procuramos expressar a dor, o poder criativo e a força de vida que 'Daytripper' nos transmite a cada capítulo / vida de Brás.

sábado, 15 de outubro de 2016

Nada a Temer - Julian Barnes

"Dividimo-nos assim em quatro categorias e vemos logo quais as duas que se consideram superiores: as que não receiam a morte porque têm fé e as que não receiam a morte apesar de não terem fé. Estes grupos ocupam a mais alta posição moral. Em terceiro lugar vêm is que, apesar de terem fé, não conseguem livrar-se do velho medo visceral, racional. E depois, já longe das medalhas, abaixo de tudo, na miséria, vêm aqueles de nós que temem a morte e que não têm fé."
'Nada a Temer', Julian Barnes

Julian Barnes entrou há já algum tempo na minha lista de autores favoritos. Conquistou-me com o seu 'The Sense of an Ending', que curiosamente tem muito do que começou por filosofar neste 'Nada a Temer', e em todos os livros  dele que fui lendo encontrei algo que me fascinou. Esta obra sobre a vida e a morte, ainda que não me tenha conquistado na íntegra, dá a conhecer um pouco melhor o homem por detrás do escritor - se é que alguma vez os podemos dissociar.

Na morte não há 'nada a temer', dizem os que não vêem na morte o desconhecido, um problema ou um medo relevante durante a vida. Julian Barnes não é um deles: não é religioso e teme a morte como algo que não lhe é palpável e imaginável. Neste livro disserta sobre a sua história de família, a mãe e o pai, o irmão filósofo de quem se sente radicalmente diferente, os amigos com quem conversa sobre o assunto da morte, autores que falam sobre a morte e que têm opiniões muito diferentes sobre este momento final da vida de cada pessoa.

É uma reflexão filosófica, académica de certa forma, psicológica em tudo o que acarreta a ideia da morte e sobretudo muito pessoal: é Julian Barnes, o homem, que aqui escreve na primeira pessoa sobre a sua infância, o seu primeiro contacto com a consciência da morte e a evolução do seu pensamento sobre este assunto que atravessa toda a obra.

"Para o escritor mais velho, memória e imaginação parecem diferenciar-se cada vez menos. Não é porque o mundo imaginado esteja realmente muito mais próximo da vida do escritor do que ele ou ela quer admitir (um erro comum entre os que dissecam a ficção), mas exactamente pela razão oposta: a própria memória acaba por, mais do que nunca, parecer muito próxima dum acto de imaginação."

Mais do que um romance, é sobretudo um diário quase existencialista entrecortado com um conjunto de reflexões de grandes pensadores sobre a morte. Jules Renard, Montaigne e muitos outros surgem citados por Barnes para mostrar as várias visões da morte que, ao longo do tempo, foram sendo partilhadas e a sua própria visão sobre ela no meio de tantos outros pensamentos díspares deste momento temido por muitos.

A religião tinha também de entrar nesta reflexão, na visão religiosa dos crentes e dos não crentes sobre a morte. A defesa de que a religião é um escape, uma forma de acreditar na vida eterna e de negar, de certa forma, a morte como aqueles que a temem a valorizam. Em tudo o que a vida nos faz pensar, entra também a memória: a incapacidade que temos de recordar todos os momentos da nossa vida tal como aconteceram ou tal como os pensámos da primeira vez, e também a forma como imaginamos as nossas memórias e as vamos alterando com o passar do tempo.

O que seria melhor, sabermos exactamente quando e como iremos morrer ou continuarmos a desconhecer esse facto? O que ajuda mais a ultrapassar a ideia da morte, a crença num Deus que nos ajude a crer na vida depois da morte, ou a descrença total? O que nos torna mais ou menos propícios a temer a morte?

Em busca de respostas e sobretudo de uma forma de entender esta ideia da morte como algo que não devemos temer, Julian Barnes leva-nos numa viagem sobre a sua vida e a vida e morte dos que o rodearam, sem nunca nos condicionar a reflexão e misturando a realidade e a ficção para que nem ele mesmo saiba se a escrita é memória ou é imaginação. Não sendo genial na forma como o faz, merece um agradecimento especial por nos tentar esclarecer (ou confundir?) um pouco mais sobre o que estamos, afinal, a fazer neste mundo.

The Mysterious Affair at Styles - Agatha Christie

"It is well. The bad moment has passed. Now all is arranged and classified. One must never permit confusion. The case is not clear yet - no. For it is of the most complicated! It puzzles me. Me, Hercule Poirot!"
'The Mysterious Affair at Styles', Agatha Christie

Há 100 anos, a Primeira Guerra Mundial assolava parte do mundo e Arthur Conan Doyle tinha já criado um dos detectives mais famosos da história dos policiais. Estava-se em 1916 e Agatha Christie escrevia a sua primeira obra, também a primeira para a sua personagem mais carismática: o detective Hercule  Poirot. Ler 'The Mysterious Affair at Styles' é conhecer um crime em pistas, conjurações e na amizade dos dois 'detectives' da história.

Hastings, o narrador, está de licença do exército britânico e aceita o convite do amigo John Cavendish para visitar a sua casa de família no Essex, Inglaterra. Uma morte choca família e convidados na casa dos Inglethorp, sendo Alfred, o marido da anfitriã, imediatamente dado como culpado por todos. Mas a chegada de Poirot ao local traz uma nova interpretação dos cenários e das personagens em torno do crime.

"- Well, I've always had a secret hankering to be a detective!
- The real thing - Scotland Yard? Or Sherlock Holmes?
- "Oh, Sherlock Holmes by all means. But really, seriously, I as awfully drawn to it. I came across a man in Belgium once, a very famous detective, and he quite inflamed me. He was a marvelous little fellow. He used to say that all good detective work was a mere matter of method."

Como o Watson de Sherlock Holmes, Hastings admira muito a genialidade de Poirot e a sua veia detectivesca dá-lhe a coragem e a confiança necessárias para ajudar o detective belga de bigode e aspecto roliço a revelar o verdadeiro culpado do homicídio. Na maior parte das vezes, a sua compreensão do raciocínio de Poirot é lenta e confusa, estando sempre um passo atrás da sua forma clara e certeira de pensar. E o leitor está sempre ao seu nível, sem saber exactamente em que pé está a descoberta de pistas, o que ajuda a manter o mistério em torno da revelação do assassino.

O conhecimento de Agatha Christie sobre os venenos e a sua capacidade de matar levam-na a introduzir este método como causa do homicídio nesta sua primeira obra policial. A 'Rainha do Crime' consegue envolver-nos com a sua escrita aparentemente simples, mas com uma profundidade que nos envolve inteiramente no mistério da história, na ambiguidade das suas personagens e na possibilidade de qualquer uma, mesmo a mais improvável, ser a culpada do crime.

Poirot é, desde estes seus primeiros momentos na imaginação de Agatha Christie e no seu surgimento no papel, uma personagem muito peculiar e fascinante. Se por um lado é apenas um refugiado de guerra vindo da Bélgica com um sotaque afrancesado e uma forma de falar inglês meio estranha, começa aos poucos a revelar a sua capacidade de juntar as pistas. É Hastings que nos diz, a certa altura, que apesar de se sentir sempre perdido, há método na loucura de Poirot - e não haverá melhor forma de o descrever: um louco com método, um génio com um certo grau de excentricidade.

"- The mind is confused? It is not so? Take time, mon ami. You are agitated; you are excited - it is but natural."

Esta edição conserva, para além do editado, o final original de Agatha Christie, com o mesmo culpado e a mesma história, mas descrito de forma diferente. O pedido do editor da autora para que rescrevesse o penúltimo capítulo oferecendo-lhe uma organização diferente mostra uma autora ainda em crescimento, que apesar de se ter tornado quase uma escritora por encomenda não deixou de ser sempre a mesma Agatha com ideias e uma grande capacidade de escrita.

Pode ser o seu primeiro livro policial, mas mostra já o potencial da futura rainha do crime e da sua personagem mais famosa, Poirot, de conquistarem muitos leitores por tudo o mundo - mesmo 100 anos depois do início de uma vida recheada de crimes, mistérios e sucessos.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Agatha: The Real Life of Agatha Christie - Martinetti/Lebeau/Franc

"My life is not a novel."
'Agatha: The Real Life of Agatha Christie', Martinetti/Lebeau/Franc

A história de um escritor entrelaça-se naturalmente com as histórias e as personagens que vai conhecendo na sua imaginação. O mais curioso em Agatha Christie é que é difícil escolher qual a história mais interessante: se a de uma das suas obras, se a a história da sua própria vida. E conhecer tudo isto numa novela gráfica recheada de referências e de um humor muito próprio é absolutamente mágico.

Agatha cresce entre o amor do pai e a 'concorrência' da irmã, também escritora, que mais tarde a incentivaria a escrever. Casa cedo com Archibald Christie, que lhe dá o nome de escritora e uma filha, Rosalind. Mas ao ver-se traída, Agatha torna-se a personagem de uma das suas histórias e desaparece misteriosamente, reaparecendo dias mais tarde, quando Archie já está a ser acusado da sua morte, dizendo não se recordar de nada. É neste momento que a sua vida muda, deixa o marido e conhece mais tarde um arqueólogo com quem se volta a casar. E entretanto surgem as suas personagens mais famosas e inesquecíveis, como Miss Marple, Poirot e Tommy e Tuppence, e muitas histórias com base nos locais que conhece, nas experiências da sua vida e nas suas muitas viagens pelo mundo.

Nesta novela gráfica, não há momento importante da vida de Agatha em que as suas personagens mais carismáticas não estejam. Mesmo quando tem de as abandonar para sempre, perto do final da vida ou apenas por acreditar ter chegado a hora de se despedir delas. Poirot, a personagem com mais casos policiais desvendados e mais histórias protagonizadas, acompanha esta Agatha de banda desenhada - mas tão real - praticamente durante toda a sua vida. Os autores imaginam entre eles diálogos deliciosos, de uma Agatha que deve muito a Poirot mas nem por isso o idolatra e gosta de o ter sempre como uma voz interior a dizer-lhe como proceder, e por outro lado de um Poirot intrometido que não larga a sua criadora nem mesmo quando esta precisa de paz de espírito e liberdade para pensar.

É curioso este elemento fantástico numa história que, apesar disso, parece ter tão pouco de irreal. Mesmo a recriação do desaparecimento misterioso de Agatha é escrita e ilustrada de uma forma muito cuidada, com a curiosa associação às possíveis reacções das personalidades que a admiravam, mas sempre procurando não fugir aos factos mais do que aproximar-se das especulações sobre a eventual premeditação da sua ausência.

É também interessante a presença de Arthur Conan Doyle na sua infância, através das histórias  de Sherlock Holmes que lia e certamente a influenciaram, e mais tarde vê-lo também como admirador de Agatha, recorrendo até ao espiritismo que caracterizou uma segunda fase da sua vida para entender melhor as suas motivações neste momento de desaparecimento e ressurgimento. É aliás este momento que dá início à novela gráfica e a partir do qual se parte para uma narração mais cronológica da vida da autora.

O que nos dá a conhecer, mais do que a autora que via em tudo quanto eram viagens, espaços, pessoas e experiências uma nova história para contar (ainda que, a certa altura, quase as escrevesse por encomenda, mais do que por ter de facto algo para contar ou vontade de o fazer de certa forma), é sobretudo Agatha, a mulher, a esposa, a mãe; a super-mulher. É uma mulher corajosa, determinada, muito inteligente e, com a idade, cada vez mais exigente consigo e com os outros. É a autora que raramente gosta dos filmes que fazem dos seus livros, mas que até gostou de Billy Wilder e da sua adaptação do 'Witness for the Prosecution'. É a mulher que desafiou, sempre que necessário, os seus editores para poder escrever histórias como 'And Then There Were None', em lugar de escrever mais um dos policiais do seu Poirot que o público tanto apreciava.

Esta vida de Agatha Christie é aqui contada de forma muito coerente, bem humorada, emotiva e dramática quando é preciso, recheada de referências para quem conhece as suas histórias e a sua história, e particularmente inspiradora para quem admira a mulher por detrás dos títulos de 'Dame' e 'Rainha do Crime'. De forma simples e maravilhosa, os três autores conseguem homenagear de forma muito bonita a vida de Agatha, a sua obra e tudo o que criou e que, cem anos após a publicação da sua primeira obra (e de Poirot), 'The Mysterious Affair at Styles', continua a fascinar muitas gerações.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Peter Pan & Peter Pan in Kensington Gardens - J.M. Barrie


"All children, except one, grow up."
'Peter Pan', J.M. Barrie

É um clássico da literatura juvenil e uma das histórias mais conhecidas que a Disney adaptou ao cinema. 'Peter Pan' é, no livro que J.M. Barrie trouxe ao mundo, uma personagem bem mais negra do que a que conhecemos - e a sua vida ficcionada uma história dura, adulta e comovente como poucas histórias para crianças de todas as idades.

Peter Pan é o jovem que nunca cresce, que entra pela janela do quarto de Wendy Darling e dos irmãos em busca da sua sombra e muda para sempre as suas vidas. Leva-os a voar para a Terra do Nunca, onde lidera um grupo de rapazes 'perdidos', fala com fadas e depressa faz com que os convidados esqueçam o local de onde vieram, a sua história e a sua família. Wendy torna-se a 'mãe' de todos os rapazes, a que cuida deles em todos os momentos, e Peter o 'pai' que os leva a viver aventuras e a lutar contra índios e piratas como o Capitão Hook.

Nestas histórias de crianças há sempre bons e maus, o bem e o mal representados em certos estereótipos e personagens com as quais facilmente nos identificamos. Há também uma certa idealização dos pais e dos adultos como seres radicalmente diferentes das crianças, que não as compreendem, que não sabem o que é ser criança. Há maus da fita, como o Capitão Hook, e os bons que nunca se abandonam uns aos outros e lutam pela sobrevivência.

Mas há muito mais do que isso nestas aventuras que Peter Pan vive com os novos amigos e os meninos perdidos na Terra do Nunca: há por detrás delas um rapaz que nunca cresceu. Peter não é mais do que um menino mimado que odeia a figura materna, por a sua mãe o ter abandonado e substituído por outro menino; é egoísta, inconsciente e irrealista, só ouve e lembra aquilo que diz,;não conhece nada da vida - não sabe o que é um beijo nem entende o verdadeiro significado das coisas.

"They are the children who fall out of their perambulators when the nurse is looking the other way. If they are not claimed in seven days they are sent far away to the Neverland to defray expenses. I'm captain."

Se Peter esqueceu por completo a sua vida antes da Terra do Nunca, Wendy nunca quis ficar ali para sempre. Quando chegou a altura certa, quis regressar a casa, para junto dos pais, com os irmãos que já não se recordavam bem de ser crianças normais e com todos os novos irmãos que ganhou graças a Peter. Mas Peter nunca quis voltar, só ocasionalmente e enquanto lhe foi possível lembrar-se, por Wendy e por toda a sua linhagem de filhas e netas a quem foi dando a conhecer a sua residência permanente.

É, por isso, mais do que uma história para crianças recheada de aventuras, de bons e maus, de crianças felizes, uma história de falta de amor, escrita de uma forma descritiva mas intensa, com situações verdadeiramente tristes e perigosas, que terminam sempre deixando-nos a lágrima ao canto do olho.

Depois da intensidade da difícil vida de Peter Pan, por quem simpatizamos pela inocência típica do que é ser criança e nunca vir a ser adulto, a segunda história fica necessariamente aquém das expectativas, mostrando-nos a história de todos os que fogem de casa para visitar os Kensington Gardens e a do próprio Peter ao regressar a casa e ver que já era tarde demais. É uma espécie de prequela da obra original, igualmente negra e muito mais adequada a uma leitura adulta do que juvenil. Ainda assim, faz parte do imaginário de J.M. Barrie e é interessante conhecer melhor este mundo alternativo que criou.

Barrie eternizou em Peter 'Pan' - a palavra que vai para sempre caracterizar a eternidade da juventude, a capacidade de nunca ter de crescer e chegar à idade adulta - o seu irmão de 14 anos que morreu precocemente, e ao fazê-lo criou um amigo eterno para todas as crianças que, por o serem, precisam sempre de amigos e aventuras onde desenvolver a sua imaginação, de uma quantidade infinita de pó de fadas como a Sininho para poderem voar até onde a criatividade os levar. Temos de lhe agradecer esta capacidade de mexer com crianças e adultos de uma forma tão diferente e com uma sensibilidade tão própria dentro de cada um de nós.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Roald Dahl: os 100 anos do mágico da literatura infantil


As histórias e os livros infanto-juvenis de Roald Dahl são algumas das primeiras experiências de leitura que muitos recordam. Os filmes baseados na sua linguagem criativa e fantástica continuam a ser dos mais icónicos que uma criança pode ver nos seus primeiros anos de vida. O escritor da nossa infância – e de todas as infâncias, na verdade – faria esta semana 100 anos e a sua vida e obra são celebradas em todo o mundo, em todas as línguas e em cada uma das personagens mágicas e inesquecíveis que criou.

artigo completo em em maquinadeescrever.org :)

sábado, 3 de setembro de 2016

Os Enamoramentos - Javier Marías


"A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, o que não deixou de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele."

Uma prenda também ela enamorada que me conquistou pela fluidez da escrita e pela sensibilidade da história, desde este primeiro parágrafo. É na primeira pessoa que Maria, mera observadora de uma história de amor, se apropria de uma verdade crua que a envolve para sempre com estas personagens quase saídas de um livro e nos dá a conhecer a genialidade de Javier Marías.

Luísa e Deverne são o casal maravilha que Maria, editora de livros, observa diariamente no café onde toma o pequeno-almoço. Até que um dia deixa de os ver, e quando volta a observá-los Deverne já lá não está: foi assassinado por um sem-abrigo que o confundiu com outra pessoa. E de um momento para o outro a vida de Luísa e dos seus filhos é abalada por uma tragédia irreversível. E a vida de Maria muda para sempre com uma aproximação espontânea a Luísa, que a leva a conhecer Javier Díaz-Varela, o melhor amigo de Deverne, e pormenores que nunca imaginou sobre a sua morte.

O que começa por ser uma história de perda transforma-se, a meio, num romance de enamoramentos e desenamoramentos a propósito de paixões alheias, regressando no final, novamente, ao tema do poder do tempo sobre a morte e a necessidade humana de ultrapassar a dor. Mais do que uma necessidade, até, porque ser humano é isso mesmo: sofrer, mas seguir em frente quando o tempo consegue curar a dor.

"Por assim dizer, eu desejava-lhes todo o bem do mundo, como às personagens de um romance ou de um filme por quem tomamos partido desde o princípio, cientes de que lhes vai acontecer algo de mal, de que a qualquer momento algo lhes vai dar para o torto, pois senão não haveria romance nem filme."

Javier Marías oferece à narradora Maria uma grande sensibilidade no relato da história, também por se tornar aos poucos parte da história, em lugar da simples observadora que era inicialmente. Os seus encontros com Javier; a forma como romanceia naturalmente a sua vida e as dos outros (fruto da sua profissão e paixão pelos livros); o que imagina que aconteceu e o confronto destas imaginações com a realidade, quando lhe é apresentada...

Tomamos o seu partido a cada revelação, a cada aproximação ou afastamento dos seus momentos de enamoramento. Sabemos exactamente o que ela sabe, imaginamos exactamente as mesmas formas de romancear a vida, e por isso surpreendemo-nos também, com ela, com a capacidade humana de as pessoas se reinventarem nas adversidades.

O autor mostra ao mesmo tempo uma grande paixão pela literatura, ao entrecortar o seu relato - de forma tão íntima e profunda - com a história de Balzac sobre o coronel Chabert, dado como morto em batalha, que ao regressar vivo já não é bem-vindo pela esposa que deixara viúva. Deverne já não volta, e Luísa já não o quereria de volta de qualquer forma. Porque precisa de seguir em frente e já o fez, de certa forma - fá-lo, aliás, a cada segundo que passa desde o momento em que o marido foi apunhalado e a sua memória fica cada vez mais distante, mais manchada pela dor do que pelas boas recordações de uma vida partilhada.

A escrita apaixonante, mais do que a complexidade das personagens e uma certa novelização da história, torna Marías um autor a explorar, na tradução ou na sua língua original (quem sabe), para que novas histórias nos possam abalar e maravilhar enquanto nos apercebemos das nossas próprias fragilidades enquanto seres humanos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Terra de Sonhos - Jiro Taniguchi

Ainda bem que Jiro Taniguchi acordou um dia e decidiu que afinal o que queria fazer da vida era desenhar. A banda desenhada agradece. A sua sensibilidade passa para nós a cada desenho, a cada história que cria em volta dos temas quotidianos, dos locais que conhece, das personagens com as quais nos identificamos.

São várias histórias de uma família às quais o autor dá forma nesta novela gráfica: quando o seu cão começa a adoecer, quando passam a ter um gato, quando passam a ter mais que um gato ou quando recebem a visita de uma sobrinha que parece mudar completamente a vida de todos. Para finalizar, há uma nova história de um montanhista que ainda não terminou a sua última caminhada pela paixão de uma vida.

A dor de perder um companheiro de vida, mais do que um simples animal de estimação que temos em casa, é algo que podemos experimentar ao longo da nossa vida; mas a forma como Taniguchi nos transmite este sentimento, como nos mostra esta dor, dificilmente nos fará chorar menos do que no dia em que perdemos este amigo de uma vida.

A partir deste momento triste na vida do casal, parece impossível sobreviver à dor e ultrapassar o mau momento, mas como tudo na vida tem de andar para a frente, são obrigados a continuar e a viver. E o futuro é mais risonho, vai trazer uma nova vida à casa, uma nova experiência. Vai trazer alegria, na pessoa da sobrinha. E sobretudo vai mostrar-lhes que a memória é o mais importante a manter quando algo se perde; e que há sempre qualquer coisa melhor para vir quando não se coloca de parte a felicidade.

Apesar de alguns pesadelos, é de sonhos e de esperança que estas histórias são feitas - quase como de memórias do próprio autor, de episódios da sua vida que aqui quis partilhar com os seus leitores, partilhando com elas as suas sensações.

Não sendo o melhor que já fez em termos de novelas gráficas, esta compilação de contos em forma de 'Terra de Sonhos' é mais uma manifestação bonita, sensível e mágica - à sua maneira natural - da genialidade de Taniguchi na criação de histórias em BD.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

V de Vingança - Alan Moore e David Lloyd

Uma distopia em formato de novela gráfica. Talvez seja a melhor forma de descrever este 'V de Vingança' sem revelar pormenores do seu enredo criteriosa e magicamente criado por Alan Moore. Mais uma prova de que a banda desenhada é para todas as idades e pode ser um veículo perfeito para poderosas histórias de ficção com muito de verosímil.

Em 'V de Vingança', Inglaterra vive sob domínio de um regime totalitário, com câmaras que vigiam cada movimento das pessoas e organismos estatais que controlam tudo o que acontece no país. V, um anárquico anónimo que usa uma máscara, destrói todos os que, no passado, destruíram a sua vida, enquanto aos poucos procura fazer a revolução e inspirar uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta pela liberdade.

É uma realidade distópica e alternativa (dizer futurista não é propriamente correcto) aquela que argumentista e ilustrador retratam nesta banda desenhada. Não há liberdade individual nem de expressão, não há justiça nem respeito pelas pessoas. Quando V inicia a sua revolução - que é também pessoal -, a anarquia instala-se, tal como pretendia, o que aperta o cerco dos governantes mas também lhes retira credibilidade.

E era exactamente esta anarquia que pretendia, como conta muitas vezes a Evey, a jovem que de certa forma resgatou das ruas para fugir à prostituição, à demência e à ditadura fascista. Porque depois da destruição tem de vir sempre uma nova construção, de raiz, pelos que têm bom coração e sabem o que é melhor para o renascimento democrático de um país.


'V de Vingança' lembra muito o regime totalitário de '1984' e tem aquela capacidade de união e força, de identificação das pessoas e de incitação à revolta que lembra também 'Os Jogos da Fome'. Por muito que os países e regimes políticos em que vivemos não sejam ditatoriais como os descritos (ainda que possam já o ter sido no passado e haja actualmente, em outros lugares do mundo, ainda, regimes do género), conseguimos identificar-nos com esta necessidade de revolução e somos capazes de olhar à nossa volta de uma forma mais crítica em relação às condicionantes das nossas vidas.

Não será sempre esse o papel ideal da literatura - fazer com que nos apercebamos do que nos rodeia e com que olhemos a realidade com outros olhos?

O traço elegante mas de cores frias, verdadeiramente cru e cortante, de David Lloyd, transporta-nos igualmente para este mundo alternativo que podia acontecer em qualquer lado, em qualquer altura, e cuja verosimilhança nos deixa totalmente sem palavras a cada capítulo. É sem dúvida uma das obras essenciais de banda desenhada e obrigatória para quem gosta de quadradinhos mais sérios. 

sábado, 23 de julho de 2016

O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

"Cada um de nós, mesmo o mais pequeno e insignificante, viu a sua existência mais íntima revolvida pelas convulsões vulcânicas, quase ininterruptas, da nossa terra europeia; e, no meio dos numerosos outros, não consigo atribuir-me nenhuma primazia senão esta: a de, enquanto austríaco, enquanto judeu, enquanto humanista e pacifista, ter estado sempre exactamente no ponto em que estes abalos sísmicos mais se fizeram sentir."
O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

Há uma expressão que vou para sempre associar a Stefan Zweig, à sua vida e à sua morte: a existência e a perda de uma "pátria espiritual" que ele próprio criou. 'O Mundo de Ontem' é o melhor título para ilustrar as memórias de um homem que nasceu num mundo feliz e despreocupado, onde quase de repente se tornou impossível viver e muito menos pensar em criar um mundo do amanhã.

Stefan Zweig nasce em 1881 em Viena, no auge de prosperidade do Império Austro-Húngaro e numa cidade culturalmente muito rica e activa. Tem uma educação privilegiada, viaja por toda a Europa enquanto jovem, conhece e torna-se amigo de muitas personalidades da época (com Rolland, Valéry, Freud, Rillke, Verhaeren etc.). 

Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, um sentimento patriótico em torno da vizinha Alemanha leva a população austríaca a unir-se mais que nunca. Zweig afasta-se das questões da guerra e torna-se pacifista, escrevendo inclusivamente sobre a necessidade de regressar à paz. Traduz muitas obras de e para o alemão, escreve alguns dos seus mais famosos ensaios e romances, e os anos do pós-guerra levam-no à crença de uma Europa unida, de uma paz impossível de se desestabilizar novamente.

A ascensão de Hitler na Alemanha, nos anos 30, no entanto, fá-lo entender que esta crença não passara de uma ingenuidade. Muda-se para Inglaterra e faz poucas e breves visitas à sua pátria, que em breve também deixará de o ser: os seus livros são proibidos na língua alemã, a Áustria é invadida pelo exército de Hitler e a II Guerra Mundial prova a toda a Europa que ainda não tinha chegado o fim da sua agonia. Pior, que estes anos de sofrimento seriam ainda mais intensos do que alguma vez o foram.

Relato estes passos da vida de Stefan Zweig apenas para ilustrar a sorte e o azar que teve, em simultâneo, de viver uma época historicamente tão rica, mas também tão sofrível. Poucos poderão dizer que viveram tanto, em tão pouco tempo, e de forma tão intensa como um homem das artes, um humanista e pacifista que acredita e confia na honestidade das pessoas, um judeu de família, um austríaco cidadão europeu. Não podemos imaginar nem uma pequena parcela do que viveu, embora estas suas memórias nos permitam entender perfeitamente os acontecimentos que criaram a sua personalidade e todos aqueles que lhe foram, aos poucos, destruindo a liberdade individual.

Por tudo isto, quando se exila no Brasil, em 1941, com a segunda esposa Lotte, não planeia regressar mais à Áustria, que agora o renega e à sua obra. Deixa de a ter como pátria física; é renegado, até, como cidadão austríaco. E da Europa leva apenas a saudade de um passado e a ilusão de uma pátria espiritual que existiu em tempos, num continente de livre circulação, de liberdade de pensamento e liberdade de expressão. Este mundo que ontem era, hoje já não o é. Desapareceu, como toda a vida que conhecera antes daquele momento.

"Se havia arte que tínhamos de aprender de novo, nós, os perseguidos e desalojados daqueles tempos hostis a qualquer arte e a qualquer coleção, essa era a arte de dizer adeus a tudo o que tinha sido outrora o nosso orgulho e o nosso amor."

Nas antigas pátrias deixa uma grande parte do que construíra e coleccionara ao longo de uma vida inteira: objectos que pertenceram a grandes personalidades que admirava e coleccionava; os seus livros e outras obras que estavam na sua posse; enfim, todos os pertences que estimava e que o exílio não permitira transportar para um local tão longínquo como o transatlântico Brasil. Os seus meses em Petrópolis, perto do Rio de Janeiro, são por isso sombrios, depressivos e sem qualquer humanidade a que se agarrar.

Para a escrita deste 'O Mundo de Ontem', livro autobiográfico e de memórias, o homem que outrora fora um dos autores mais aclamados da Áustria e da língua alemã pôde apenas utilizar e basear-se, precisamente, na sua própria memória. Tudo o que escreve pode ser enviesado pela distância temporal e pela opinião que tem de si mesmo (perante si e perante os outros). Não deixa, no entanto, de ser um exercício de memória muito emotivo e um notável relato histórico da época que viveu.

E se 'O Mundo de Ontem' não é historicamente perfeito, é-o, pelo menos, como obra literária - e como memória de um homem muito interessante de conhecer de forma tão íntima. A sua escrita, como nas obras de ficção, é mais do que um simples relato de uma história: é uma construção narrativa carregada de sentimento, de um humanismo contagiante, de uma nostalgia única. Conhecer Stefan Zweig, aqui, é ler tanto a história macabra da maldição das suas peças de teatro quando (quase) levadas à cena, como também os últimos dias da mãe na Áustria antes de Hitler ter invadido o país e procurado os judeus para eliminar a sua presença da Europa.

Por outro lado, é também levar-nos, enquanto leitores interessados e apaixonados, mais de 70 anos após a sua morte, a descobrir mais sobre este homem, as suas emoções e intenções, a sua vida mas também a sua morte. Porque em 1942 acreditava-se que Hitler não pararia pela Europa e Zweig temia que o sol, o calor e a beleza de um Brasil turístico e despreocupado fossem destruídos para sempre por este homem que queria conquistar o mundo. E ele, Stefan Zweig, o que seria depois disso? Aos 60 anos, continuaria a fugir? Como poderia reconstruir novamente e eternamente a sua vida, criando um mundo de amanhã que se pudesse assemelhar, o mínimo possível, ao mundo de ontem que já não existia?

Em Fevereiro de 1942, Zweig e a sua esposa põem fim à vida na sua casa de Petrópolis, onde nos últimos cinco meses o autor e o homem que neste livro se nos dá a conhecer compôs nostálgica e melodicamente um relato escrito das suas memórias. Para ele não havia outro destino possível, depois de ter perdido praticamente tudo o que a sua vida procurara construir. Para nós, que o lemos hoje, não há forma melhor de nos continuarmos a apaixonar pela sua existência e pela sua obra do que com este inesquecível 'O Mundo de Ontem'.


Outras leituras de Zweig: