segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Peter Pan & Peter Pan in Kensington Gardens - J.M. Barrie


"All children, except one, grow up."
'Peter Pan', J.M. Barrie

É um clássico da literatura juvenil e uma das histórias mais conhecidas que a Disney adaptou ao cinema. 'Peter Pan' é, no livro que J.M. Barrie trouxe ao mundo, uma personagem bem mais negra do que a que conhecemos - e a sua vida ficcionada uma história dura, adulta e comovente como poucas histórias para crianças de todas as idades.

Peter Pan é o jovem que nunca cresce, que entra pela janela do quarto de Wendy Darling e dos irmãos em busca da sua sombra e muda para sempre as suas vidas. Leva-os a voar para a Terra do Nunca, onde lidera um grupo de rapazes 'perdidos', fala com fadas e depressa faz com que os convidados esqueçam o local de onde vieram, a sua história e a sua família. Wendy torna-se a 'mãe' de todos os rapazes, a que cuida deles em todos os momentos, e Peter o 'pai' que os leva a viver aventuras e a lutar contra índios e piratas como o Capitão Hook.

Nestas histórias de crianças há sempre bons e maus, o bem e o mal representados em certos estereótipos e personagens com as quais facilmente nos identificamos. Há também uma certa idealização dos pais e dos adultos como seres radicalmente diferentes das crianças, que não as compreendem, que não sabem o que é ser criança. Há maus da fita, como o Capitão Hook, e os bons que nunca se abandonam uns aos outros e lutam pela sobrevivência.

Mas há muito mais do que isso nestas aventuras que Peter Pan vive com os novos amigos e os meninos perdidos na Terra do Nunca: há por detrás delas um rapaz que nunca cresceu. Peter não é mais do que um menino mimado que odeia a figura materna, por a sua mãe o ter abandonado e substituído por outro menino; é egoísta, inconsciente e irrealista, só ouve e lembra aquilo que diz,;não conhece nada da vida - não sabe o que é um beijo nem entende o verdadeiro significado das coisas.

"They are the children who fall out of their perambulators when the nurse is looking the other way. If they are not claimed in seven days they are sent far away to the Neverland to defray expenses. I'm captain."

Se Peter esqueceu por completo a sua vida antes da Terra do Nunca, Wendy nunca quis ficar ali para sempre. Quando chegou a altura certa, quis regressar a casa, para junto dos pais, com os irmãos que já não se recordavam bem de ser crianças normais e com todos os novos irmãos que ganhou graças a Peter. Mas Peter nunca quis voltar, só ocasionalmente e enquanto lhe foi possível lembrar-se, por Wendy e por toda a sua linhagem de filhas e netas a quem foi dando a conhecer a sua residência permanente.

É, por isso, mais do que uma história para crianças recheada de aventuras, de bons e maus, de crianças felizes, uma história de falta de amor, escrita de uma forma descritiva mas intensa, com situações verdadeiramente tristes e perigosas, que terminam sempre deixando-nos a lágrima ao canto do olho.

Depois da intensidade da difícil vida de Peter Pan, por quem simpatizamos pela inocência típica do que é ser criança e nunca vir a ser adulto, a segunda história fica necessariamente aquém das expectativas, mostrando-nos a história de todos os que fogem de casa para visitar os Kensington Gardens e a do próprio Peter ao regressar a casa e ver que já era tarde demais. É uma espécie de prequela da obra original, igualmente negra e muito mais adequada a uma leitura adulta do que juvenil. Ainda assim, faz parte do imaginário de J.M. Barrie e é interessante conhecer melhor este mundo alternativo que criou.

Barrie eternizou em Peter 'Pan' - a palavra que vai para sempre caracterizar a eternidade da juventude, a capacidade de nunca ter de crescer e chegar à idade adulta - o seu irmão de 14 anos que morreu precocemente, e ao fazê-lo criou um amigo eterno para todas as crianças que, por o serem, precisam sempre de amigos e aventuras onde desenvolver a sua imaginação, de uma quantidade infinita de pó de fadas como a Sininho para poderem voar até onde a criatividade os levar. Temos de lhe agradecer esta capacidade de mexer com crianças e adultos de uma forma tão diferente e com uma sensibilidade tão própria dentro de cada um de nós.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Roald Dahl: os 100 anos do mágico da literatura infantil


As histórias e os livros infanto-juvenis de Roald Dahl são algumas das primeiras experiências de leitura que muitos recordam. Os filmes baseados na sua linguagem criativa e fantástica continuam a ser dos mais icónicos que uma criança pode ver nos seus primeiros anos de vida. O escritor da nossa infância – e de todas as infâncias, na verdade – faria esta semana 100 anos e a sua vida e obra são celebradas em todo o mundo, em todas as línguas e em cada uma das personagens mágicas e inesquecíveis que criou.

artigo completo em em maquinadeescrever.org :)

sábado, 3 de setembro de 2016

Os Enamoramentos - Javier Marías


"A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, o que não deixou de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele."

Uma prenda também ela enamorada que me conquistou pela fluidez da escrita e pela sensibilidade da história, desde este primeiro parágrafo. É na primeira pessoa que Maria, mera observadora de uma história de amor, se apropria de uma verdade crua que a envolve para sempre com estas personagens quase saídas de um livro e nos dá a conhecer a genialidade de Javier Marías.

Luísa e Deverne são o casal maravilha que Maria, editora de livros, observa diariamente no café onde toma o pequeno-almoço. Até que um dia deixa de os ver, e quando volta a observá-los Deverne já lá não está: foi assassinado por um sem-abrigo que o confundiu com outra pessoa. E de um momento para o outro a vida de Luísa e dos seus filhos é abalada por uma tragédia irreversível. E a vida de Maria muda para sempre com uma aproximação espontânea a Luísa, que a leva a conhecer Javier Díaz-Varela, o melhor amigo de Deverne, e pormenores que nunca imaginou sobre a sua morte.

O que começa por ser uma história de perda transforma-se, a meio, num romance de enamoramentos e desenamoramentos a propósito de paixões alheias, regressando no final, novamente, ao tema do poder do tempo sobre a morte e a necessidade humana de ultrapassar a dor. Mais do que uma necessidade, até, porque ser humano é isso mesmo: sofrer, mas seguir em frente quando o tempo consegue curar a dor.

"Por assim dizer, eu desejava-lhes todo o bem do mundo, como às personagens de um romance ou de um filme por quem tomamos partido desde o princípio, cientes de que lhes vai acontecer algo de mal, de que a qualquer momento algo lhes vai dar para o torto, pois senão não haveria romance nem filme."

Javier Marías oferece à narradora Maria uma grande sensibilidade no relato da história, também por se tornar aos poucos parte da história, em lugar da simples observadora que era inicialmente. Os seus encontros com Javier; a forma como romanceia naturalmente a sua vida e as dos outros (fruto da sua profissão e paixão pelos livros); o que imagina que aconteceu e o confronto destas imaginações com a realidade, quando lhe é apresentada...

Tomamos o seu partido a cada revelação, a cada aproximação ou afastamento dos seus momentos de enamoramento. Sabemos exactamente o que ela sabe, imaginamos exactamente as mesmas formas de romancear a vida, e por isso surpreendemo-nos também, com ela, com a capacidade humana de as pessoas se reinventarem nas adversidades.

O autor mostra ao mesmo tempo uma grande paixão pela literatura, ao entrecortar o seu relato - de forma tão íntima e profunda - com a história de Balzac sobre o coronel Chabert, dado como morto em batalha, que ao regressar vivo já não é bem-vindo pela esposa que deixara viúva. Deverne já não volta, e Luísa já não o quereria de volta de qualquer forma. Porque precisa de seguir em frente e já o fez, de certa forma - fá-lo, aliás, a cada segundo que passa desde o momento em que o marido foi apunhalado e a sua memória fica cada vez mais distante, mais manchada pela dor do que pelas boas recordações de uma vida partilhada.

A escrita apaixonante, mais do que a complexidade das personagens e uma certa novelização da história, torna Marías um autor a explorar, na tradução ou na sua língua original (quem sabe), para que novas histórias nos possam abalar e maravilhar enquanto nos apercebemos das nossas próprias fragilidades enquanto seres humanos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Terra de Sonhos - Jiro Taniguchi

Ainda bem que Jiro Taniguchi acordou um dia e decidiu que afinal o que queria fazer da vida era desenhar. A banda desenhada agradece. A sua sensibilidade passa para nós a cada desenho, a cada história que cria em volta dos temas quotidianos, dos locais que conhece, das personagens com as quais nos identificamos.

São várias histórias de uma família às quais o autor dá forma nesta novela gráfica: quando o seu cão começa a adoecer, quando passam a ter um gato, quando passam a ter mais que um gato ou quando recebem a visita de uma sobrinha que parece mudar completamente a vida de todos. Para finalizar, há uma nova história de um montanhista que ainda não terminou a sua última caminhada pela paixão de uma vida.

A dor de perder um companheiro de vida, mais do que um simples animal de estimação que temos em casa, é algo que podemos experimentar ao longo da nossa vida; mas a forma como Taniguchi nos transmite este sentimento, como nos mostra esta dor, dificilmente nos fará chorar menos do que no dia em que perdemos este amigo de uma vida.

A partir deste momento triste na vida do casal, parece impossível sobreviver à dor e ultrapassar o mau momento, mas como tudo na vida tem de andar para a frente, são obrigados a continuar e a viver. E o futuro é mais risonho, vai trazer uma nova vida à casa, uma nova experiência. Vai trazer alegria, na pessoa da sobrinha. E sobretudo vai mostrar-lhes que a memória é o mais importante a manter quando algo se perde; e que há sempre qualquer coisa melhor para vir quando não se coloca de parte a felicidade.

Apesar de alguns pesadelos, é de sonhos e de esperança que estas histórias são feitas - quase como de memórias do próprio autor, de episódios da sua vida que aqui quis partilhar com os seus leitores, partilhando com elas as suas sensações.

Não sendo o melhor que já fez em termos de novelas gráficas, esta compilação de contos em forma de 'Terra de Sonhos' é mais uma manifestação bonita, sensível e mágica - à sua maneira natural - da genialidade de Taniguchi na criação de histórias em BD.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

V de Vingança - Alan Moore e David Lloyd

Uma distopia em formato de novela gráfica. Talvez seja a melhor forma de descrever este 'V de Vingança' sem revelar pormenores do seu enredo criteriosa e magicamente criado por Alan Moore. Mais uma prova de que a banda desenhada é para todas as idades e pode ser um veículo perfeito para poderosas histórias de ficção com muito de verosímil.

Em 'V de Vingança', Inglaterra vive sob domínio de um regime totalitário, com câmaras que vigiam cada movimento das pessoas e organismos estatais que controlam tudo o que acontece no país. V, um anárquico anónimo que usa uma máscara, destrói todos os que, no passado, destruíram a sua vida, enquanto aos poucos procura fazer a revolução e inspirar uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta pela liberdade.

É uma realidade distópica e alternativa (dizer futurista não é propriamente correcto) aquela que argumentista e ilustrador retratam nesta banda desenhada. Não há liberdade individual nem de expressão, não há justiça nem respeito pelas pessoas. Quando V inicia a sua revolução - que é também pessoal -, a anarquia instala-se, tal como pretendia, o que aperta o cerco dos governantes mas também lhes retira credibilidade.

E era exactamente esta anarquia que pretendia, como conta muitas vezes a Evey, a jovem que de certa forma resgatou das ruas para fugir à prostituição, à demência e à ditadura fascista. Porque depois da destruição tem de vir sempre uma nova construção, de raiz, pelos que têm bom coração e sabem o que é melhor para o renascimento democrático de um país.


'V de Vingança' lembra muito o regime totalitário de '1984' e tem aquela capacidade de união e força, de identificação das pessoas e de incitação à revolta que lembra também 'Os Jogos da Fome'. Por muito que os países e regimes políticos em que vivemos não sejam ditatoriais como os descritos (ainda que possam já o ter sido no passado e haja actualmente, em outros lugares do mundo, ainda, regimes do género), conseguimos identificar-nos com esta necessidade de revolução e somos capazes de olhar à nossa volta de uma forma mais crítica em relação às condicionantes das nossas vidas.

Não será sempre esse o papel ideal da literatura - fazer com que nos apercebamos do que nos rodeia e com que olhemos a realidade com outros olhos?

O traço elegante mas de cores frias, verdadeiramente cru e cortante, de David Lloyd, transporta-nos igualmente para este mundo alternativo que podia acontecer em qualquer lado, em qualquer altura, e cuja verosimilhança nos deixa totalmente sem palavras a cada capítulo. É sem dúvida uma das obras essenciais de banda desenhada e obrigatória para quem gosta de quadradinhos mais sérios. 

sábado, 23 de julho de 2016

O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

"Cada um de nós, mesmo o mais pequeno e insignificante, viu a sua existência mais íntima revolvida pelas convulsões vulcânicas, quase ininterruptas, da nossa terra europeia; e, no meio dos numerosos outros, não consigo atribuir-me nenhuma primazia senão esta: a de, enquanto austríaco, enquanto judeu, enquanto humanista e pacifista, ter estado sempre exactamente no ponto em que estes abalos sísmicos mais se fizeram sentir."
O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

Há uma expressão que vou para sempre associar a Stefan Zweig, à sua vida e à sua morte: a existência e a perda de uma "pátria espiritual" que ele próprio criou. 'O Mundo de Ontem' é o melhor título para ilustrar as memórias de um homem que nasceu num mundo feliz e despreocupado, onde quase de repente se tornou impossível viver e muito menos pensar em criar um mundo do amanhã.

Stefan Zweig nasce em 1881 em Viena, no auge de prosperidade do Império Austro-Húngaro e numa cidade culturalmente muito rica e activa. Tem uma educação privilegiada, viaja por toda a Europa enquanto jovem, conhece e torna-se amigo de muitas personalidades da época (com Rolland, Valéry, Freud, Rillke, Verhaeren etc.). 

Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, um sentimento patriótico em torno da vizinha Alemanha leva a população austríaca a unir-se mais que nunca. Zweig afasta-se das questões da guerra e torna-se pacifista, escrevendo inclusivamente sobre a necessidade de regressar à paz. Traduz muitas obras de e para o alemão, escreve alguns dos seus mais famosos ensaios e romances, e os anos do pós-guerra levam-no à crença de uma Europa unida, de uma paz impossível de se desestabilizar novamente.

A ascensão de Hitler na Alemanha, nos anos 30, no entanto, fá-lo entender que esta crença não passara de uma ingenuidade. Muda-se para Inglaterra e faz poucas e breves visitas à sua pátria, que em breve também deixará de o ser: os seus livros são proibidos na língua alemã, a Áustria é invadida pelo exército de Hitler e a II Guerra Mundial prova a toda a Europa que ainda não tinha chegado o fim da sua agonia. Pior, que estes anos de sofrimento seriam ainda mais intensos do que alguma vez o foram.

Relato estes passos da vida de Stefan Zweig apenas para ilustrar a sorte e o azar que teve, em simultâneo, de viver uma época historicamente tão rica, mas também tão sofrível. Poucos poderão dizer que viveram tanto, em tão pouco tempo, e de forma tão intensa como um homem das artes, um humanista e pacifista que acredita e confia na honestidade das pessoas, um judeu de família, um austríaco cidadão europeu. Não podemos imaginar nem uma pequena parcela do que viveu, embora estas suas memórias nos permitam entender perfeitamente os acontecimentos que criaram a sua personalidade e todos aqueles que lhe foram, aos poucos, destruindo a liberdade individual.

Por tudo isto, quando se exila no Brasil, em 1941, com a segunda esposa Lotte, não planeia regressar mais à Áustria, que agora o renega e à sua obra. Deixa de a ter como pátria física; é renegado, até, como cidadão austríaco. E da Europa leva apenas a saudade de um passado e a ilusão de uma pátria espiritual que existiu em tempos, num continente de livre circulação, de liberdade de pensamento e liberdade de expressão. Este mundo que ontem era, hoje já não o é. Desapareceu, como toda a vida que conhecera antes daquele momento.

"Se havia arte que tínhamos de aprender de novo, nós, os perseguidos e desalojados daqueles tempos hostis a qualquer arte e a qualquer coleção, essa era a arte de dizer adeus a tudo o que tinha sido outrora o nosso orgulho e o nosso amor."

Nas antigas pátrias deixa uma grande parte do que construíra e coleccionara ao longo de uma vida inteira: objectos que pertenceram a grandes personalidades que admirava e coleccionava; os seus livros e outras obras que estavam na sua posse; enfim, todos os pertences que estimava e que o exílio não permitira transportar para um local tão longínquo como o transatlântico Brasil. Os seus meses em Petrópolis, perto do Rio de Janeiro, são por isso sombrios, depressivos e sem qualquer humanidade a que se agarrar.

Para a escrita deste 'O Mundo de Ontem', livro autobiográfico e de memórias, o homem que outrora fora um dos autores mais aclamados da Áustria e da língua alemã pôde apenas utilizar e basear-se, precisamente, na sua própria memória. Tudo o que escreve pode ser enviesado pela distância temporal e pela opinião que tem de si mesmo (perante si e perante os outros). Não deixa, no entanto, de ser um exercício de memória muito emotivo e um notável relato histórico da época que viveu.

E se 'O Mundo de Ontem' não é historicamente perfeito, é-o, pelo menos, como obra literária - e como memória de um homem muito interessante de conhecer de forma tão íntima. A sua escrita, como nas obras de ficção, é mais do que um simples relato de uma história: é uma construção narrativa carregada de sentimento, de um humanismo contagiante, de uma nostalgia única. Conhecer Stefan Zweig, aqui, é ler tanto a história macabra da maldição das suas peças de teatro quando (quase) levadas à cena, como também os últimos dias da mãe na Áustria antes de Hitler ter invadido o país e procurado os judeus para eliminar a sua presença da Europa.

Por outro lado, é também levar-nos, enquanto leitores interessados e apaixonados, mais de 70 anos após a sua morte, a descobrir mais sobre este homem, as suas emoções e intenções, a sua vida mas também a sua morte. Porque em 1942 acreditava-se que Hitler não pararia pela Europa e Zweig temia que o sol, o calor e a beleza de um Brasil turístico e despreocupado fossem destruídos para sempre por este homem que queria conquistar o mundo. E ele, Stefan Zweig, o que seria depois disso? Aos 60 anos, continuaria a fugir? Como poderia reconstruir novamente e eternamente a sua vida, criando um mundo de amanhã que se pudesse assemelhar, o mínimo possível, ao mundo de ontem que já não existia?

Em Fevereiro de 1942, Zweig e a sua esposa põem fim à vida na sua casa de Petrópolis, onde nos últimos cinco meses o autor e o homem que neste livro se nos dá a conhecer compôs nostálgica e melodicamente um relato escrito das suas memórias. Para ele não havia outro destino possível, depois de ter perdido praticamente tudo o que a sua vida procurara construir. Para nós, que o lemos hoje, não há forma melhor de nos continuarmos a apaixonar pela sua existência e pela sua obra do que com este inesquecível 'O Mundo de Ontem'.


Outras leituras de Zweig:

sábado, 9 de julho de 2016

O Segredo dos Seus Olhos - Eduardo Sacheri

"Era inveja. O amor que aquele homem tinha vivido despertava-me uma enorme inveja, para lá da piedade que me suscitasse a tragédia em que esse amor acabara por naufragar."
'O Segredo dos Seus Olhos', Eduardo Sacheri

Uma das maravilhas adquiridas este ano na Feira do Livro de Lisboa, porque estava mesmo na altura de recordar esta história. Quando comecei a lê-lo ainda durante a feira, em longas tardes passadas à sombra das árvores na bonita relva do Parque Eduardo VII, sabia que ia voltar a emocionar-me com a investigação de Chaparro e a rever cada frame do filme à medida que a história se ia revelando.

Em 1968, Benjamín Chaparro, vice-secretário de um tribunal de instrução na Argentina, fica encarregado da resolução de um caso de homicídio de uma jovem mulher que deixou um marido de coração partido. Entre o dia-a-dia de Chaparro no tribunal, o seu amor quase platónico por uma mulher e a busca infrutífera do assassino pelo marido da vítima, Ricardo Morales, passam 25 anos sobre o início do caso. A reforma de Chaparro leva-o a escrever um livro sobre toda esta investigação e a revistar as provas, os acontecimentos e esta paixão antiga que se mantém bem presente.

"É porque pela primeira vez sabe que hoje sim, sem falta e sem demora, tem de ir bater à porta do gabinete; ouvir a voz dela a dizer-lhe que entre; plantar-se como um homem diante da mulher que ama; ignorar a pergunta trivial que os lábios dela soltam quando o recebem a sorrir; pagar, ou cobrar, a dívida que tem pendente e que é o único motivo válido que encontra para continuar a viver. Porque Chaparro precisa de responder àquela mulher, de uma vez e para sempre, a pergunta dos seus olhos."

'O Segredo dos Seus Olhos' é a história de Chaparro e Irene, do seu amor impossível e afastado pelo tempo e pela vida; dos olhos dela, que tanto parecem dizer, e dos olhos dele, que tanto gostavam de poder e saber colocar em palavras aquilo que sentem e o segredo que encerram. Mas é também a história do amor possível vivido por Morales, interrompido abrupta e injustamente por um assassino frio e cruel, que lhe levou para sempre a Liliana que os seus olhos deixaram de poder voltar a contemplar e passaram apenas a registar pela memória dos melhores anos da sua vida passados a seu lado.

O amor de Ricardo Morales, a sua dedicação primeiro à esposa e, após a sua morte, ao desvendar do caso da sua morte, é verdadeiramente tocante - pelos pormenores, talvez até mais do que o filme nos permite entender. No entanto a dimensão visual do filme, a ausência de informação e descrições das acções, tornam-no mais eficazmente emotivo, tocando os temas e a história do livro de forma ainda mais sensível, verdadeira e crua.

Num e noutro, há um peso na consciência e uma emoção que não se conseguem conter, sobretudo na leitura e na descoberta cinematográfica do desfecho totalmente imprevisível (ainda que com pormenores diferentes entre as duas linguagens culturais). 

São dois homens com duas paixões inspiradoras, que Eduardo Sacheri criou e escreveu de forma bastante interessante, e que no cinema atingem o seu expoente máximo de expressão (a todos os níveis). Sem dúvida uma leitura pouco adequada a passeios de Verão, mas muito relevante para entendermos um pouco melhor a vileza da natureza humana, o poder do amor e sobretudo, na lição de Chaparro, que nunca é tarde para se ser feliz.

"Quando posteriormente me contou com luxo de detalhes tudo o que acontecera nesse pequeno-almoço, não o fez como o comum dos mortais, que procuram reconstruir a partir de vestígios quase ilusórios, ou a partir do que recordam fragmentariamente de outras ocasiões similares, situações ou sensações que perderam para sempre. Morales não. Pois sentia que ter Liliana era uma felicidade abusiva, que nada tinha que ver com o que fora o resto da sua vida. E que, tal como o cosmos tende para o equilíbrio, mais tarde ou mais cedo ele teria de perdê-la para que as coisas voltassem à sua ordem devida. Cada uma das suas recordações com ela tingia-se dessa sensação de naufrágio iminente, de catástrofe ao virar da esquina."

sábado, 11 de junho de 2016

A Casa da Morte Certa - Albert Cossery


"A casa estava tão desamparada nos seus mais pequenos recantos que, para além dos elementos exteriores que fomentavam a sua ruína, encerrava em si mesma o gérmen do seu desabamento. Nada o podia deter na sua metódica e vertiginosa destruição."
'A Casa da Morte Certa, Albert Cossery

Há um ano que aguardava este primeiro encontro com Albert Cossery, na expectativa de que fosse mais um dos autores da interessante vaga existencialista. É, no entanto, mais do que isso: faz-nos ver a inevitabilidade e a falta de importância dada às coisas relevantes, mas também nos leva a pensar, a revoltar, a agir. A saltar das páginas do livro para olhar à nossa volta e tentar compreender um pouco melhor o mundo que nos rodeia.

Na casa da morte certa, os seus habitantes vivem na pobreza, em condições miseráveis, com apartamentos degradados e um senhorio que não quer saber deles e dos seus problemas, não assumindo inclusivamente a responsabilidade pelas necessárias obras que a casa precisa para evitar o seu desabamento. E eles aguardam, uns desinteressados, outros procurando uma solução concertada junto do senhorio ou de outras entidades, na expectativa de salvar a casa e as suas vidas.

"Não tinham vontade de se levantar, nem de fazer o mais pequeno gesto. Sentiam-se aprisionados no seu destino e banidos para sempre do resto do mundo. A casa poderia ruir: ela encontrá-los-ia prontos para o supremo sacrifício. Para quê moverem-se, se tudo deve, por fim, cair no vazio da morte?"

Entre os habitantes desta casa perdida no Egipto encontramos vários trabalhadores de rua - vendedores de alfaces, carroceiros, domadores de macacos -, árabes, pobres, sem esperança e sem espírito de equipa. Todos partilham um certo egoísmo (natural do ser humano, é certo, mas nem sempre tão vincado) que os desresponsabiliza e afasta dos problemas comuns, seja por desinteresse, seja por vaidade.

Mais mesquinho, egoísta e pobre (de espírito!) que todos eles, o senhorio Si Kahlil, rico e cheio de esquemas, ignora todas as tentativas dos inquilinos de salvarem a sua casa da morte certa. Apesar das muitas diferenças que os afastavam uns dos outros, procuram unir-se contra este homem e contra a sua atitude silenciosa e inerte perante a sua desgraça. Este espírito de equipa, de revolta e de vingança marca também, de certa forma, esta obra de Cossery, ainda que na verdade representem mais uma questão de palavra do que de acto.

"Não havia como a noite para os pobres. Só nela se sentiam eles próprios e podiam esconder a vergonha da sua agonia."

Se a casa tem a morte certa, os homens e as mulheres que a habitam também. E aos poucos vão revelando estas suas atitudes mesquinhas, talvez pela proximidade da morte, talvez pelo medo de perderem tudo. E por isso não confiam nunca plenamente uns nos outros, desconfiam sempre das suas ambições pessoais.

Diz-se que foi esta ambição, causa de todas as desgraças do mundo, que Cossery quis aqui retratar no seu sentido filosófico, face àquele que apenas quer da vida os simples prazeres da existência. Daí a veia existencialista, daí a aceitação das coisas como são, sem grandes exaltações. Mas em Cossery há de facto muito mais do que isso: há revolta nas almas e nos corações, há essa ambição desmedida no peito de cada um destes habitantes. E há uma insuficiência suficiente de força de vontade e de revolução que faz tudo terminar quase como começou.

"As crianças dormem tranquilas. Nunca se queixam. O homem esse queixa-se porque percebe que é um escravo. Procura sair disso grita debate-se mas nada acontece. As crianças são a força que se erguerá um dia da lama dos bairros populares. Uma força imensa e explosiva que nada mais poderá deter. Vinda do fundo das vielas submergirá as praças e as avenidas. Rebentará como um mar tempestuoso atingindo desta forma o rio as ilhas adormecidas no esplendor dos palácios. Aí deter-se-á por fim. Respirará vigorosamente. Terá atingido o seu objectivo."

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Os Cadernos de Pickwick - Charles Dickens

"O sol, pontual servidor de todos os trabalhos, acabava de nascer e começava a alumiar a manhã do dia treze de Maio de mil e oitocentos e vinte e sete, quando Samuel Pickwick se ergueu, tal outro sol, dos seus sonhos, abriu de par em par a janela do quarto e espreitou o mundo em baixo."
'Os Cadernos de Pickwick', Charles Dickens

Prendas de anos que não podiam ser mais bem escolhidas. Um verdadeiro presente pickwickiano - recheado de aventuras sem sair do sofá, mas que nos enchem o coração e nos fazem rir e chorar por mais a cada fascículo novo. Charles Dickens conquistou-me com estes pequenos cadernos humorísticos, o Sr. Pickwick e as viagens com os seus amigos.

Pickwick e os pupilos e amigos Tupman, Snodgrass e Winkle, membros do clube ao qual o primeiro dá nome, passam os dias a viajar pelo interior de Inglaterra em busca de conhecer melhor não só os locais, mas também as pessoas que neles habitam. Fazem assim descobertas científicas e do comportamento humano, conhecendo personagens muito características, vivendo situações muitas vezes ridículas e tornando as viagens, mais que 'profissionais', muito pessoais.

"Poucos momentos haverá na vida de um homem que se possam comparar, na experiência do sofrimento ridículo e de uma proporcional falta de compaixão e caridade, à corrida atrás do próprio chapéu."

Estas aventuras são relatadas com muito humor, desde o Sr. Pickwick atrás do seu chapéu às paixões dos seus amigos por donzelas que vão conhecendo; do episódio que os aproxima a todos da prisão às trapalhices do pai do Sr. Weller; do Sr. Jingle que não consegue construir uma frase sem reticências e com mais de 5 palavras seguidas... aos partidos distintos de Eatanswill.

Quando um livro e um autor têm, sozinhos - com os devidos créditos aos leitores que os celebrizam -, a capacidade de tornar as acções das suas personagens características, ao ponto de serem tomadas como referência sempre que alguém tem as mesmas acções, sabemos que estamos perante uma das grandes obras do século XIX! É o que acontece com Samuel Weller e a sua peculiar forma de se expressar: sempre utilizando comparações engraçadas e metáforas no seu discurso.

Apesar de muito descritivos, estes 'Os Cadernos de Pickwick' são também bastante dialógicos: há sempre acção, aventuras a acontecer, discursos elegantes a ser ditos, expressões curiosas a ser utilizadas. E tudo isto torna a leitura, apesar de densa e longa (são mais de 900 páginas!!), muito interessante e rápida, a par dos belos desenhos que vão ilustrando as aventuras vividas pela trupe.

"-Não acham extraordinária a impressão de que é nosso destino entrar em casa de toda a gente para os meter em qualquer espécie de sarilho?"

Se ao longo dos fascículos - sim, que isto não foi escrito como uma obra só, mas sim como pequenas histórias em fascículos - o Sr. Pickwick é frequentemente caricaturado nos relatos das viagens, pela forma inevitável e inesperada como é apanhado em situações estranhas e duvidosas, é ao mesmo tempo o mais perspicaz, sensível, compreensivo, humilde e sensato de todos eles.

À sua volta as personagens exageram, representam classes sociais, mostram características do local e das pessoas que conhecem, são conservadoras ou desrespeitam-se umas às outras. E o Sr. Pickwick é sempre a pessoa que mete ordem na casa, que explica como as coisas devem ser, o que está certo e o que está errado, elevando a sua voz e mostrando aos outros o que de melhor se encontra nos seus corações.

As personagens não mudam necessariamente ao longo da obra, antes descobrimos lados seus que desconhecíamos inicialmente. E vamo-nos aproximando delas, cada vez mais, à medida que se nos vão mostrando boas, apaixonadas e "pickwickianas", no que de sarilhos e humildade a expressão encerra.

Tanto Sam como Pickwick são absolutas revelações nesta obra e sem dúvida as personagens que me fazem querer voltar a estas páginas. Recomendarei a todas as pessoas, porque acredito que há um pouco de cada uma destas personagens em nós, e isso torna a leitura muito mais interessante, rica e memorável - e a descrição da sua leitura uma tarefa quase impossível :)

terça-feira, 10 de maio de 2016

Chernobyl: A Zona - Bustos e Sánchez

Novelas gráficas com cunho jornalístico. Havia muitas formas de descrever e homenagear as vítimas da explosão nuclear de Chernobyl, 30 anos depois. Mas poucas conseguiriam fazê-lo de forma tão simples e sentimental como esta banda desenhada negra, crua e introspectiva.

'Chernobyl: A Zona' segue uma família em três gerações - e os efeitos que Chernobyl teve nas suas vidas. Leonid e Galia vivem perto da central nuclear, acabam por ser obrigados a abandonar a zona quando as aldeias mais próximas são evacuadas devido às fortes radiações, mas regressam anos depois à sua casa e voltam a cultivar num terreno altamente infectado, como alguns resistentes que não quiseram morrer longe de casa. A filha, Anna, perde o marido na explosão e, grávida, tem também de encontrar uma nova vida com o filho Yuri e Tatiana, a criança que carrega, longe de tudo o que sempre conheceu. Anos depois é Yuri que regressa a Chernobyl com a irmã, ela em busca de saber mais sobre o passado, ele de reencontrar de alguma forma a infância perdida.

O Fantástico Sr. Raposo - Roald Dahl

"Quero que saibam que, se não fosse o vosso pai, agora estávamos todos mortos. O vosso pai é um raposo fantástico."
'O Fantástico Sr. Raposo', Roald Dahl

Prendas que também são prendas para quem as oferece. Não é tão bom quando isso acontece? 'O Fantástico Sr. Raposo' é uma obra infantil que devia estar em todas as estantes do mundo, sejam crianças ou crianças grandes (todos o somos um bocadinho, mesmo que adultos). Por isso tenho-o na minha, emprestado, para quem o quiser folhear e sorrir em qualquer tarde chuvosa.

Obra do maior contador de histórias de todo o mundo, Roald Dahl, este pequeno e simples livro conta a história do Sr. Raposo, que vive com a sua mulher e os quatro filhos raposinhos debaixo da terra. Apenas sai do conforto da sua casa para se alimentar: rouba galinhas e outros alimentos das quintas dos maiores patifes da região: Boggis, Bunche e Bean. Ao quererem apanhá-lo em flagrante e destruir a sua família, o Sr. Raposo tem de ser mais rápido e inteligente do que eles, pelo que engendra um plano para os salvar.

Amok e Carta de uma Desconhecida - Stefan Zweig

"- Amok?... Creio recordar-me... é uma espécie de embriaguez... entre os malaios.
- É mais do que embriaguez... é loucura, uma espécie de raiva humana, literariamente falando... uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcoólica não se pode comparar."
'Amok', Stefan Zweig

É muito fácil deixarmo-nos conquistar pela escrita espontânea e sentida de Stefan Zweig - e então quando já fomos anteriormente conquistados, a sua sensibilidade, a emoção e a fluidez dos seus relatos sempre tão pessoais não cessam de nos apaixonar. Esta aquisição em segunda mão não podia ter sido mais profícua: um verdadeiro 'leve 3 pague 1' inesquecível.

'Amok' é a primeira história que o autor nos dá a conhecer nesta edição. Como é habitual em Zweig, trata-se de um relato de vida, contado por um homem nervoso que se esconde de todos num navio a caminho da Europa, a um desconhecido que anos depois nos dá conta desta conversa confidencial. O homem, médico, foi abordado por uma senhora com uma solicitação médica muito sensível, que inicialmente desvalorizou. No entanto, ao querer ajudá-la, apercebe-se de que nada pode fazer para voltar atrás no tempo, apenas pode tentar com todas as suas forças preservar o orgulho desta mulher.