sábado, 14 de janeiro de 2017

Our Man in Havana - Graham Greene

"- Do you know what Savage said to me? I can tell you, it gave me a very nasty nightmare. He said that one of the drawings reminded him of a giant vacuum cleaner.
- A vacuum cleaner! - Hawthorne bent down and examined the drawings again, and the cold struck him once more."
'Our Man in Havana',  Graham Greene

Graham Greene é o mestre da sátira da espionagem e da apologia das relações humanas sobre todo o horror que a vida pode proporcionar. Apaixona à primeira leitura e continua a apaixonar em todas as seguintes, como nesta obra escrita entre as suas muitas viagens a Cuba ainda antes da revolução cubana.

'Our Man in Havana' conta um episódio life-changing da vida de Jim Wormold, um inglês que vive em Havana e tem uma loja de aspiradores. Abandonado pela mulher, Wormold tem dificuldades financeiras para sustentar e agradar a filha de 17 anos, Milly, que é constantemente cortejada pelo Captain Segura, da polícia local. É neste contexto que Wormold é recrutado como espião dos serviços secretos britânicos e começa a lucrar com os relatórios que envia à chefia.

Procurando limitar os possíveis spoilers, que oferecem um brilhantismo único a esta história, é interessante ver como Greene satiriza a espionagem britânica, toda a rede dos serviços secretos, e ao mesmo tempo a estupidez humana. A simplicidade e ingenuidade de Wormold transformam-se ao longo da obra, pela sua necessidade de obter ganhos superiores e satisfazer os desejos da filha adolescente, tornando-o calculista, inteligente e muito perspicaz.

"They can print statistics and count the populations in hundreds of thousands, but to each man a city consists of no more than a few streets, a few houses, a few people. Remote those few and a city exists no longer except as a pain in the memory, like the pain of an amputated leg no longer there. It was time, Wormold thought, to pack up and go and leave the ruins of Havana."

É sobretudo um romance construído em torno da sua narrativa, mas também em torno das suas personagens. Para além da complexidade e da transformação de Wormold, a sua amizade com o Dr. Hasselbacher é um dos maiores desafios que esta aparente "venda" da sua alma aos serviços secretos o leva a enfrentar. O mesmo em relação a Beatrice, enviada como secretária pelos serviços secretos para ajudar Wormold a contactar as suas fontes e a proteger-se. Mas ninguém escolhe quando e por quem se apaixona.

Há um humor muito subtil e inteligentemente inserido nesta obra de Greene, na forma como Wormold cria os seus relatórios e estes são tomados pelos serviços secretos. E também prevalece, no meio de toda esta história aparentemente bem humorada, um drama profundo no impacto que esta nova vida de Wormold tem sobre os seus amigos, desconhecidos que a ele estão ligados por laços inexistentes, e mesmo sobre a sua percepção da vida em Havana.

Não há forma de expressar o interesse que este livro desperta em nós, o seu tom policial que acelera a leitura, o seu humor satírico que nos leva a querer saber como vai terminar esta história, e mesmo a última parte mais dramática e emocionante que desperta o nosso lado mais humano. Greene é um génio e um autor muito versátil e completo que nos deixa sempre - positivamente - sem palavras.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Stefan Zweig - Confusão de Sentimentos

"Que maravilha vê-lo assim satisfeito! Seria efeito da serena noite de Verão, efeito benfazejo da suavidade da atmosfera de tons desmaiados, ou brilhar-lhe-ia na alma um pensamento consolador? Ignorava. Mas, habituado a ler no seu rosto como num livro aberto, sentia que uma coisa era certa: nesse dia, um deus misericordioso aplicara-lhe um bálsamo nas rugas e nas pregas do coração."
'Confusão de Sentimentos', Stefan Zweig

Não há qualquer confusão de sentimentos em relação a Stefan Zweig: há um sentimento único de grande admiração, de paixão pela sua escrita intensa, de  um desconforto feliz perante a profundidade dramática das suas novelas. Este volume é mais um de compilação de histórias brilhantemente escritas, que nos tocam como se as vivêssemos na primeira pessoa.

Entre algumas personagens e histórias que nos deixam um pouco mais indiferentes, a maioria destaca-se pelo sentimento que Zweig transmite a cada pedaço da sua arte literária. Em 'A Estrela sobre a Floresta', há um amor incógnito e não correspondido de um criado de hotel por uma hóspede. Em 'O Medo', uma mulher infiel ao marido é levada à loucura pela namorada do amante, que faz chantagem com ela. Em 'Confusão de Sentimentos', um estudante ganha intimidade com um professor e a sua esposa, cujo conhecimento muda totalmente a sua vida.

"Nem um segundo durou, e não foi nenhum estremecimento, susto ou movimento. E, no entanto, foi um daqueles segundos em que se concentram milhares de horas e de dias cheios de exultação e de tormento, da mesma forma que um único grão de pólen transportado pelo vento encerra a força selvagem dos grandes carvalhos das ramagens agitadas pela brisa e copas balançando num sussurrar surdo."
Por muito que as histórias se concentrem em contextos e personagens diferentes, há pontos comuns a todas as novelas que as tornam verdadeiramente 'zweigianas': o medo e a percepção errada sobre os sentimentos dos outros, o fracasso das expectativas que se tem em relação a alguém, o amor não correspondido - ou a incapacidade de corresponder ao amor do outro, pelo menos na mesma medida. Há muita confusão de sentimentos, muitas forças distintas, cada uma a puxar para o seu lado, que levam as personagens a criar cenários ilusórios, a ficar loucas ou mesmo a morrer de desgosto.

Se por um lado Zweig cumpre sempre bem as nossas expectativas, as suas histórias fogem sempre um pouco ao expectável. Há sempre um twist, algo no meio ou no final das novelas que nos faz entender o propósito de não o termos desvendado logo nos primeiros parágrafos - e que nos faz sentir aquele misto de sentimentos, entre o querer muito chegar ao final e saber o desenlace, e o não querer nunca deixar de ler aquelas palavras e de sentir aquela emoção numa leitura.

Zweig, para mim, é sempre sinónimo de emoção, paixão e tragédia, a todos os níveis. As suas novelas enchem-nos de amor, mas sobretudo de uma grande dor, transversal à maioria das suas personagens bem humanas. Quando comprei este livro na Feira do Livro, há dois anos, o livreiro disse-me: "leva aí um dos melhores livros que temos". Não estava enganado. Encheu-me as medidas, aliás como Zweig sempre o faz.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Inverno do Desenhador - Paco Roca


"Quando disse que ia deixar o banco para ser desenhador, foi como se tivesse dito que queria ser bailarina de cabaré."
'O Inverno do Desenhador', Paco Roca

Um primeiro contacto inesquecível com Paco Roca e as suas novelas gráficas  com carga dramática, escritas e ilustradas com muita sensibilidade. 'O Inverno do Desenhador' é, apesar da sua história documental e profunda, uma primavera de sensações e de histórias magnificamente desenhadas, que deixa aquela vontade enorme de conhecer mais do trabalho do autor.

Em género de documentário, Paco Roca conta aqui a história real de um grupo de cinco desenhadores da maior editora espanhola de BD, a Editorial Bruguera, que em 1957, durante a ditadura franquia, saíram da editora e criaram uma publicação própria, a revista 'Tío Vivo'. Fizeram-no por o seu trabalho não ser devidamente reconhecido na época: não recebiam direitos de autor, pois não detinham os direitos sobre as suas criações, nem podiam preservar os seus desenhos originais.

A aventura de Guillermo Cifré, Carlos Conti, Josep Escobar, Eugenio Giner e José Peñarroya durou  apenas um ano e pouco: como a Bruguera controlava a distribuição e detinha as suas criações mais famosas, não conseguiram que a sua revista se afirmasse junto do público e acabaram por regressar à editora cabisbaixos e sem terem conseguido concretizar o seu sonho. Ainda que não seja propriamente uma história de sucesso, mostra a coragem deste homens em afirmar-se contra o poder instalado durante uma época em que a liberdade era uma miragem e a imprensa se encontrava muito controlada.

E Paco Roca ilustra na perfeição os sentimentos e estados de espírito dos protagonistas, os avanços e recuos da história e da sua tentativa de fugir à ordem instalada, de gerar discussão em torno da questão dos direitos de autor, e sobretudo de procurar uma vida mais digna e melhor para os desenhadores e as suas famílias. Se o seu traço já é, por si só, cuidado e suave, a cor de fundo das páginas a alterar-se consoante a estação do ano e a intensidade dos acontecimentos tornam este 'O Inverno do Desenhador' uma experiência ainda mais inesquecível.

É interessante descobrir como o autor procurou conhecer esta história a fundo, para a poder dar a conhecer na sua arte, a banda desenhada, da forma mais real possível. Para isso falou com os intervenientes ainda vivos desta história e, através destas cores diferenciadas, da descrição visual e textual da época e da criação de personagens profundas e com as quais nos deixamos identificar, construir este mundo da Espanha franquista de 1957 para nos fazer entrar de forma ainda mais permanente na história.

O resultado é uma novela gráfica documental à qual vamos sempre associar esta história dos cinco desenhadores sonhadores e destemidos que lutaram pelos seus direitos.

sábado, 3 de dezembro de 2016

A Leste do Paraíso - John Steinbeck

"Por entre as lágrimas que brotavam, Aron podia ver a expressão dos olhos de Cal, duros e determinados. Não havia lágrimas nos olhos dele."
'A Leste do Paraíso', John Steinbeck

Falar de livros como este é sempre ficar aquém, a leste do que significa verdadeiramente a sua leitura. É a melhor prenda que podemos oferecer ou recomendar a outra pessoa: preenche-nos e2 vai ao nosso íntimo buscar algo que sempre lá esteve mas nunca se manifestou; é uma redescoberta do papel do ser humano no mundo e um grito de liberdade e de vontade própria que redefine a sua capacidade de construir o seu próprio destino.

'A Leste do Paraíso' tem como enquadramento bíblico a história de Caim e Abel, dois irmãos que não são os melhores amigos. O mesmo acontece com o protagonista, Adam, que tem uma relação problemática com o irmão Charles e até mesmo com o pai de ambos. A história de Cathy Ames, uma rapariga perturbada retratada aqui como um verdadeiro monstro, sem coração e sem consciência, é narrada em simultâneo. Adam apaixona-se por ela, mudam-se para o Vale de Salinas, e desta união nascem dois irmãos, Aron e Cal, o primeiro mais calmo, favorito do pai, e Cal o que parece assemelhar-se ao espírito maldoso da mãe. Em paralelo, Sam Hamilton cria com a esposa nove filhos e torna-se amigo de Adam quando este chega a Salinas.

"- Meu Deus - disse ele -, faz com que eu seja como o Aron. Não me faças mau. Eu não quero ser mau. Se fizeres com que toda a gente goste de mim, dar-te-ei tudo o que quiseres. E se não o tiver, irei buscá-lo onde estiver. Eu não quero ser mau e não quero ficar sozinho. Ámen."

Revelar mais do que estes - já demasiados! - pormenores da história seria trair a intenção do autor de dar a descobrir, aos poucos, estas personagens tão ricas cujas vidas se entrelaçam de formas que nunca conseguiremos esquecer. Nas várias 'partes' que constituem o livro, parece intensificar-se o crescendo dramático e a história parece caminhar, de forma comedida, para uma descoberta final que vai mudar o futuro destas personagens.

Se Charles e Adam, numa primeira geração, já apresentavam características semelhantes à história de Caim e Abel, Cal e Aron mostram de forma ainda mais profunda, ainda que talvez mais subtil, a recriação desta história trágica. Há em Cal um conflito constante de sentimentos, uma luta interior do bem contra o mal, fruto da bondade do pai e da monstruosidade da mãe, que o tornam um rapaz constantemente indeciso e interessante do ponto de vista das suas acções futuras - e ao mesmo tempo uma pessoa com a qual facilmente nos identificados nos vários cambiantes do nosso estado de espírito.

Adam, Cal e o sábio Samuel Hamilton destacam-se talvez pela sua complexidade e pelo papel de relevo que têm neste 'A Leste do Paraíso', mas não há personagem com um papel mais importante e interessante como Lee, o criado chinês de Adam que aos poucos se torna um tutor para os seus filhos e um amigo para o pai das crianças. É uma personagem que, ao revelar-se, foge o estereótipo e se mostra inteligente, educada e decisiva na história.

"Não compreendo porque é que a condição de criado tem má fama. É o refúgio do filósofo, o alimento do preguiçoso e, se for bem compreendida, é uma posição de poderia e até de amor. Não percebo como é que não há mais pessoas inteligentes que abracem esta carreira, lhe aprendam os segredos e dela beneficiem."

É ele, inclusive, quem relê com Adam e Samuel a história de Caim e Abel e detecta um erro na tradução para o inglês que condiciona todo o sentimento religioso e toda a interpretação errada da história. 'A Leste do Paraíso' poderia ser descrito apenas numa palavra hebraica cujo entendimento é fundamenta para compreender o nosso papel no mundo: "timshel". Deus não queria dizer "tu dominarás o pecado", nem "tu dominas", mas sim "tu podes". É a capacidade humana de decidir, de escolher, de querer ou não dominar o pecado, seguir o caminho do bem em lugar do caminho do mal. Isto em Caim, e o mesmo em Cal.

O que mais impressiona e entusiasma é esta capacidade de identificação, esta proximidade com as personagens. São verdadeiramente humanas, erram, precisam de acreditar num Deus para sobreviver à loucura, à dor e à vida, e isso torna-as tão reais que toda a sua história nos emociona. Steinbeck tem esta capacidade de nos envolver neste paraíso literário, no entanto trágico e realista, tão melhor que o filme e que qualquer outra possível interpretação noutra linguagem, que nos faz querer mais e mais desta sensação única que nos proporciona.

"Mas 'tu podes' é algo que engrandece o homem e o eleva ao tamanho dos deuses, porque, apesar da sua fraqueza, da sua imundície e do assassínio do irmão, é ele ainda quem dispõe da grande escolha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer e vencer."

sábado, 26 de novembro de 2016

O Astrágalo - Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg

"... o fio tecido entre ele e eu desde aquela noite no meio das árvores ir-se-ia consolidando e enrolando, ele, eu... ele, eu... ele, eu... Pela primeira vez, não me apetece saber logo o final, nem sequer a continuação, desta aventura. Este minuto é verdadeiro e vivo, e estico.o pela eternidade..."
'O Astrágalo', Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg

Surpresa irresistível na Amadora BD 2016 que me fez voltar a olhar para esta história, depois da adaptação cinematográfica, e ganhar amor a este relato tão humano, intimista e apaixonado da vida da autora Albertine Sarrazin. 

Anne é uma rapariga de 19 anos que parte um osso do tornozelo chamado astrágalo, ao saltar a parede da prisão onde está presa por assalto. É salva por Julien, um ladrão como ela, e vai esconder-se, sofrer, rebelar-se, fugir constantemente. Mas nada lhe importa: está loucamente apaixonada por Julien. São jovens fugitivos, livres na sua vida de crime e selvagens. Qual será o preço da liberdade nesta história de amor?

'O Astrágalo', o osso partido que impede Anne de andar e viver sozinha, de ser livre e independente, é o único título possível para esta sua aventura após a fuga da prisão. Julien ajuda-a a fugir, a receber todos os cuidados necessários e a descansar, deixando-a em casa de amigos e conhecidos, levando-a a conhecer personagens inimagináveis que a fazem desesperar por não poder ter a sua vida normal.


É por isso a história de uma menina-mulher em fuga, contada na primeira pessoa; da dor física da sua recuperação e da dor ainda maior de ser um encargo para todos. Mas sobretudo do seu sofrimento perante os longos períodos sem ver Julien, pela impossibilidade de saber se ele sente o mesmo que ela. Ela, que antes de tudo isto - do maldito osso quebrado - vivera uma paixão enorme por Rolande, uma colega da prisão, que deseja rever depois do pesadelo em que a sua vida, de certa forma, se tornou.

Mas Julien está sempre lá, desde aquele momento em que a encontrou à beira da estrada, magoada, e a levou de volta à vida. Com ele sente-se inteira, capaz de tudo, numa liberdade eterna. Não há prisão física que a separe do amor que sente por este homem igual a ela, ladrão como ela, que tudo faz para sobreviver numa sociedade autoritária do pós-guerra em França.

E Anne escarrapacha esta sua liberdade interior na cara de todos. Ou melhor, Albertine fê-lo, antes do Maio de 68 e com toda a garra dos seus 19 anos na altura. Vivera o seu romance com Rolande, prostituira-se, procurara ajudar Julien na sua vida criminosa. Sempre inconformista, sempre ousada, sempre uma sobrevivente.


O romance de Albertine Sarrazin será certamente ainda mais tocante, trata-se afinal de uma semi-autobiografia. O que os autores concretizam nesta banda desenhada é dar uma dimensão ainda mais visual à aventura de Anne e Julien, com um traço muito simples, que joga muito bem com o preto e o branco nos desenhos e nos vários momentos da história. A beleza de cada ilustração, o contraste entre o dia e a noite, a intensidade dramática dos encontros de Anne - tudo isso é brilhantemente descrito entre a adaptação das palavras e o que nos é mostrado em imagens.

Há uma força muito grande nesta história, quase inexplicável, que nos puxa do início ao fim e nos emociona no final surpreendente, que gostaríamos de não ter de presenciar. Porque eles são ladrões, criminosos, mas a sua paixão e a sua liberdade impelem-nos constantemente para eles, fazem-nos simpatizar com a sua dor, a sua força, a sua rebeldia; o seu amor.

É talvez das histórias de amor mais estranhas e livres da história da literatura, e ainda assim das mais bonitas. Em novela gráfica, só sentimos de forma ainda mais intensa e íntima o seu significado.

sábado, 29 de outubro de 2016

O Agente Secreto - Joseph Conrad

"Toda a paixão está agora perdida. O mundo é medíocre, mole, sem força. E a loucura e o desespero são uma força. E força é um crime aos olhos dos tolos, dos fracos, e dos patetas que mandam."
'O Agente Secreto', Joseph Conrad

É talvez das obras menos célebres de Conrad e das mais afastadas da sua 'biblioteca' habitual, segundo os muitos experts pelo mundo fora. Lê-lo pela primeira vez neste drama semi policial é, no entanto, conhecer a sua escrita cuidada e o poder das reviravoltas numa história aparentemente simples.

O Sr. Verloc é um agente secreto de embaixadas estrangeiras em Londres e da polícia inglesa, infiltrado no movimento anarquista e revolucionário local para fornecer informações e provocar actos terroristas com o objectivo de levar a polícia a actuar de forma mais dura sobre estes movimentos. Apaixonado por Winnie, a sua esposa, e simpatizado com o seu irmão Steve, de quem ela cuida diariamente, o Sr. Verloc vive feliz numa loja de fachada da sua actividade política. Quando é ordenado a fazer explodir um local importante da capital inglesa, contudo, nem tudo corre bem neste acto terrorista, que vai impôr uma mudança nas vidas de todas as personagens.

"Naquela loja de artigos duvidosos cheia de prateleiras pintadas de um castanho baço, que parecia devorar o brilho da luz, o círculo de ouro da aliança na mão esquerda da Sr.ª Verloc brilhou excessivamente com a glória imaculada de uma jóia, retirada de um tesouro esplêndido, ao cair no caixote do lixo."

Conrad é mais descritivo e sensível na primeira parte do romance, antes do atentado em Greenwich - símbolo do espírito e do poder científicos no início do século XX -, dando-nos a conhecer todas as personagens de relevo para a trama, a relação de Verloc com a esposa e desta com o irmão cadenciado, os anarquistas e únicos 'amigos' de Verloc, e ainda este estranho pedido de criação de um momento impactante para obrigar à actuação da polícia.

Depois do atentado, parece ganhar outra vida. A sensibilidade deixa-se um pouco de lado: há crueza, há vingança, há um despojo total de toda sobriedade, de toda a submissão a que a aceitação de uma vida menor obriga. A dor e a perda da vontade de viver pode transformar até o ser humano mais brando e submisso num agitador. E Conrad mostra-nos esta transformação tão real, tão credível, que faz valer em si mesma toda a leitura. Como se estivéssemos dentro de uma tragédia à moda do teatro.

Aqui não há heróis, não há heroísmos. Há uma aventura, há acção, há um acontecimento central em que se centra toda a obra - e há sobretudo um grande domínio sobre o ritmo, que Conrad gere de forma muito interessante. Mas Verloc está longe de ser uma personagem a que nos agarremos do início ao fim. É mais um no mundo de loucos, mais um que erra e falha como todos os outros. E o objectivo de agitação da sociedade, quando um atentado não corre exactamente como previsto, falha também.

Não sei se Conrad terá algo de anárquico dentro de si e que transponha para a sua obra. A sua preocupação parece extrapolar a questão individual e mesmo política (e mesmo desta história, que se baseia num acontecimento verídico), o que a meu ver ganha alguns pontos. A intemporalidade desta obra assusta igualmente pela proximidade à forma como ainda são levados a cabo estes atentados nos dias de hoje.

'O Agente Secreto' deixa sobretudo a curiosidade de conhecer melhor Conrad e descobrir a sua obra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Daytripper - Fábio Moon e Gabriel Bá

"Só quando aceitas que vais morrer é que consegues finalmente libertar-te... e aproveitar a vida ao máximo."
'Daytripper', Fábio Moon e Gabriel Bá

As histórias sobre a vida têm lugar em todos os tipos de literatura, mas é talvez na banda desenho ada que conseguem ganhar, literalmente, mais expressão visual. 'Daytripper' é um dos exemplos máximos deste poder das novelas gráficas, levando-nos para novos mundos, como viajantes no dia-a-dia de várias realidades alternativas.

Brás de Oliva Domingues é filho de um escritor famoso e também ele escritor de obituários para um jornal, lidando assim com a morte diariamente. Mas nunca está preparado para as mortes que o rodeiam - e muito menos para a sua própria morte. Acontece que, no final de cada capítulo, Brás morre, de uma forma ou de outra, na infância ou na velhice, depois de uma vida cheia de momentos felizes ou com tudo por concretizar.

Cada capítulo é como uma vida alternativa de Brás, que com as suas inúmeras mortes continua a ser das personagens com mais vida e personalidade que conhecemos. Há histórias de sucessos e fracassos de romances, aventuras, esperanças, muitas mudanças e desilusões. 'Daytripper' é um "e se?" constante, em que Brás vai crescendo e a sua vida evoluindo, como se cada morte possível fosse um caminho não escolhido. Talvez apenas uma delas tenha acontecido, ou talvez sejam todas fruto da sua imaginação ou das possibilidades da vida terrena.



Os percursos alternativos lidam sempre com percepções, reacções aos momentos que se vivem e sobretudo com escolhas de Brás, como se cada uma delas levasse a um caminho de morte diferente. A relação com o pai às aventuras com o amigo Jorge, um amor antigo à descoberta do amor da sua vida,  o nascimento do primeiro filho, episódios da sua infância e (re e des)encontros pouco felizes, tudo faz parte da vida e tudo espelha o que pode ter sido a existência de Brás (ou a que aqui pretende relatar numa espécie de memória ficcional).

Fábio Moon e Gabriel Bá são dois irmãos gémeos com paixão por contar histórias e pela banda desenhada, o que é claramente visível nesta viagem única e surpreendente, recheada de cenários bem brasileiros, de cores maravilhosas e de ilustrações que remetem constantemente para o mundo do sonho e da imaginação. Esta unicidade e este foco num indivíduo como muitos outros, com uma vida mais ou menos preenchida e tudo menos perfeita, foca-se no entanto em questões bem universais e com as quais facilmente nos identificamos.

O que sobra é uma sensação de busca constante por algo que nunca conseguimos alcançar - a essência da vida. Sobra uma vontade tremenda de aproveitar cada dia como se o amanhã fosse um caminho possível de aproximação ao nosso derradeiro dia na Terra. E tudo parece redutor quando procuramos expressar a dor, o poder criativo e a força de vida que 'Daytripper' nos transmite a cada capítulo / vida de Brás.

sábado, 15 de outubro de 2016

Nada a Temer - Julian Barnes

"Dividimo-nos assim em quatro categorias e vemos logo quais as duas que se consideram superiores: as que não receiam a morte porque têm fé e as que não receiam a morte apesar de não terem fé. Estes grupos ocupam a mais alta posição moral. Em terceiro lugar vêm is que, apesar de terem fé, não conseguem livrar-se do velho medo visceral, racional. E depois, já longe das medalhas, abaixo de tudo, na miséria, vêm aqueles de nós que temem a morte e que não têm fé."
'Nada a Temer', Julian Barnes

Julian Barnes entrou há já algum tempo na minha lista de autores favoritos. Conquistou-me com o seu 'The Sense of an Ending', que curiosamente tem muito do que começou por filosofar neste 'Nada a Temer', e em todos os livros  dele que fui lendo encontrei algo que me fascinou. Esta obra sobre a vida e a morte, ainda que não me tenha conquistado na íntegra, dá a conhecer um pouco melhor o homem por detrás do escritor - se é que alguma vez os podemos dissociar.

Na morte não há 'nada a temer', dizem os que não vêem na morte o desconhecido, um problema ou um medo relevante durante a vida. Julian Barnes não é um deles: não é religioso e teme a morte como algo que não lhe é palpável e imaginável. Neste livro disserta sobre a sua história de família, a mãe e o pai, o irmão filósofo de quem se sente radicalmente diferente, os amigos com quem conversa sobre o assunto da morte, autores que falam sobre a morte e que têm opiniões muito diferentes sobre este momento final da vida de cada pessoa.

É uma reflexão filosófica, académica de certa forma, psicológica em tudo o que acarreta a ideia da morte e sobretudo muito pessoal: é Julian Barnes, o homem, que aqui escreve na primeira pessoa sobre a sua infância, o seu primeiro contacto com a consciência da morte e a evolução do seu pensamento sobre este assunto que atravessa toda a obra.

"Para o escritor mais velho, memória e imaginação parecem diferenciar-se cada vez menos. Não é porque o mundo imaginado esteja realmente muito mais próximo da vida do escritor do que ele ou ela quer admitir (um erro comum entre os que dissecam a ficção), mas exactamente pela razão oposta: a própria memória acaba por, mais do que nunca, parecer muito próxima dum acto de imaginação."

Mais do que um romance, é sobretudo um diário quase existencialista entrecortado com um conjunto de reflexões de grandes pensadores sobre a morte. Jules Renard, Montaigne e muitos outros surgem citados por Barnes para mostrar as várias visões da morte que, ao longo do tempo, foram sendo partilhadas e a sua própria visão sobre ela no meio de tantos outros pensamentos díspares deste momento temido por muitos.

A religião tinha também de entrar nesta reflexão, na visão religiosa dos crentes e dos não crentes sobre a morte. A defesa de que a religião é um escape, uma forma de acreditar na vida eterna e de negar, de certa forma, a morte como aqueles que a temem a valorizam. Em tudo o que a vida nos faz pensar, entra também a memória: a incapacidade que temos de recordar todos os momentos da nossa vida tal como aconteceram ou tal como os pensámos da primeira vez, e também a forma como imaginamos as nossas memórias e as vamos alterando com o passar do tempo.

O que seria melhor, sabermos exactamente quando e como iremos morrer ou continuarmos a desconhecer esse facto? O que ajuda mais a ultrapassar a ideia da morte, a crença num Deus que nos ajude a crer na vida depois da morte, ou a descrença total? O que nos torna mais ou menos propícios a temer a morte?

Em busca de respostas e sobretudo de uma forma de entender esta ideia da morte como algo que não devemos temer, Julian Barnes leva-nos numa viagem sobre a sua vida e a vida e morte dos que o rodearam, sem nunca nos condicionar a reflexão e misturando a realidade e a ficção para que nem ele mesmo saiba se a escrita é memória ou é imaginação. Não sendo genial na forma como o faz, merece um agradecimento especial por nos tentar esclarecer (ou confundir?) um pouco mais sobre o que estamos, afinal, a fazer neste mundo.

The Mysterious Affair at Styles - Agatha Christie

"It is well. The bad moment has passed. Now all is arranged and classified. One must never permit confusion. The case is not clear yet - no. For it is of the most complicated! It puzzles me. Me, Hercule Poirot!"
'The Mysterious Affair at Styles', Agatha Christie

Há 100 anos, a Primeira Guerra Mundial assolava parte do mundo e Arthur Conan Doyle tinha já criado um dos detectives mais famosos da história dos policiais. Estava-se em 1916 e Agatha Christie escrevia a sua primeira obra, também a primeira para a sua personagem mais carismática: o detective Hercule  Poirot. Ler 'The Mysterious Affair at Styles' é conhecer um crime em pistas, conjurações e na amizade dos dois 'detectives' da história.

Hastings, o narrador, está de licença do exército britânico e aceita o convite do amigo John Cavendish para visitar a sua casa de família no Essex, Inglaterra. Uma morte choca família e convidados na casa dos Inglethorp, sendo Alfred, o marido da anfitriã, imediatamente dado como culpado por todos. Mas a chegada de Poirot ao local traz uma nova interpretação dos cenários e das personagens em torno do crime.

"- Well, I've always had a secret hankering to be a detective!
- The real thing - Scotland Yard? Or Sherlock Holmes?
- "Oh, Sherlock Holmes by all means. But really, seriously, I as awfully drawn to it. I came across a man in Belgium once, a very famous detective, and he quite inflamed me. He was a marvelous little fellow. He used to say that all good detective work was a mere matter of method."

Como o Watson de Sherlock Holmes, Hastings admira muito a genialidade de Poirot e a sua veia detectivesca dá-lhe a coragem e a confiança necessárias para ajudar o detective belga de bigode e aspecto roliço a revelar o verdadeiro culpado do homicídio. Na maior parte das vezes, a sua compreensão do raciocínio de Poirot é lenta e confusa, estando sempre um passo atrás da sua forma clara e certeira de pensar. E o leitor está sempre ao seu nível, sem saber exactamente em que pé está a descoberta de pistas, o que ajuda a manter o mistério em torno da revelação do assassino.

O conhecimento de Agatha Christie sobre os venenos e a sua capacidade de matar levam-na a introduzir este método como causa do homicídio nesta sua primeira obra policial. A 'Rainha do Crime' consegue envolver-nos com a sua escrita aparentemente simples, mas com uma profundidade que nos envolve inteiramente no mistério da história, na ambiguidade das suas personagens e na possibilidade de qualquer uma, mesmo a mais improvável, ser a culpada do crime.

Poirot é, desde estes seus primeiros momentos na imaginação de Agatha Christie e no seu surgimento no papel, uma personagem muito peculiar e fascinante. Se por um lado é apenas um refugiado de guerra vindo da Bélgica com um sotaque afrancesado e uma forma de falar inglês meio estranha, começa aos poucos a revelar a sua capacidade de juntar as pistas. É Hastings que nos diz, a certa altura, que apesar de se sentir sempre perdido, há método na loucura de Poirot - e não haverá melhor forma de o descrever: um louco com método, um génio com um certo grau de excentricidade.

"- The mind is confused? It is not so? Take time, mon ami. You are agitated; you are excited - it is but natural."

Esta edição conserva, para além do editado, o final original de Agatha Christie, com o mesmo culpado e a mesma história, mas descrito de forma diferente. O pedido do editor da autora para que rescrevesse o penúltimo capítulo oferecendo-lhe uma organização diferente mostra uma autora ainda em crescimento, que apesar de se ter tornado quase uma escritora por encomenda não deixou de ser sempre a mesma Agatha com ideias e uma grande capacidade de escrita.

Pode ser o seu primeiro livro policial, mas mostra já o potencial da futura rainha do crime e da sua personagem mais famosa, Poirot, de conquistarem muitos leitores por tudo o mundo - mesmo 100 anos depois do início de uma vida recheada de crimes, mistérios e sucessos.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Agatha: The Real Life of Agatha Christie - Martinetti/Lebeau/Franc

"My life is not a novel."
'Agatha: The Real Life of Agatha Christie', Martinetti/Lebeau/Franc

A história de um escritor entrelaça-se naturalmente com as histórias e as personagens que vai conhecendo na sua imaginação. O mais curioso em Agatha Christie é que é difícil escolher qual a história mais interessante: se a de uma das suas obras, se a a história da sua própria vida. E conhecer tudo isto numa novela gráfica recheada de referências e de um humor muito próprio é absolutamente mágico.

Agatha cresce entre o amor do pai e a 'concorrência' da irmã, também escritora, que mais tarde a incentivaria a escrever. Casa cedo com Archibald Christie, que lhe dá o nome de escritora e uma filha, Rosalind. Mas ao ver-se traída, Agatha torna-se a personagem de uma das suas histórias e desaparece misteriosamente, reaparecendo dias mais tarde, quando Archie já está a ser acusado da sua morte, dizendo não se recordar de nada. É neste momento que a sua vida muda, deixa o marido e conhece mais tarde um arqueólogo com quem se volta a casar. E entretanto surgem as suas personagens mais famosas e inesquecíveis, como Miss Marple, Poirot e Tommy e Tuppence, e muitas histórias com base nos locais que conhece, nas experiências da sua vida e nas suas muitas viagens pelo mundo.

Nesta novela gráfica, não há momento importante da vida de Agatha em que as suas personagens mais carismáticas não estejam. Mesmo quando tem de as abandonar para sempre, perto do final da vida ou apenas por acreditar ter chegado a hora de se despedir delas. Poirot, a personagem com mais casos policiais desvendados e mais histórias protagonizadas, acompanha esta Agatha de banda desenhada - mas tão real - praticamente durante toda a sua vida. Os autores imaginam entre eles diálogos deliciosos, de uma Agatha que deve muito a Poirot mas nem por isso o idolatra e gosta de o ter sempre como uma voz interior a dizer-lhe como proceder, e por outro lado de um Poirot intrometido que não larga a sua criadora nem mesmo quando esta precisa de paz de espírito e liberdade para pensar.

É curioso este elemento fantástico numa história que, apesar disso, parece ter tão pouco de irreal. Mesmo a recriação do desaparecimento misterioso de Agatha é escrita e ilustrada de uma forma muito cuidada, com a curiosa associação às possíveis reacções das personalidades que a admiravam, mas sempre procurando não fugir aos factos mais do que aproximar-se das especulações sobre a eventual premeditação da sua ausência.

É também interessante a presença de Arthur Conan Doyle na sua infância, através das histórias  de Sherlock Holmes que lia e certamente a influenciaram, e mais tarde vê-lo também como admirador de Agatha, recorrendo até ao espiritismo que caracterizou uma segunda fase da sua vida para entender melhor as suas motivações neste momento de desaparecimento e ressurgimento. É aliás este momento que dá início à novela gráfica e a partir do qual se parte para uma narração mais cronológica da vida da autora.

O que nos dá a conhecer, mais do que a autora que via em tudo quanto eram viagens, espaços, pessoas e experiências uma nova história para contar (ainda que, a certa altura, quase as escrevesse por encomenda, mais do que por ter de facto algo para contar ou vontade de o fazer de certa forma), é sobretudo Agatha, a mulher, a esposa, a mãe; a super-mulher. É uma mulher corajosa, determinada, muito inteligente e, com a idade, cada vez mais exigente consigo e com os outros. É a autora que raramente gosta dos filmes que fazem dos seus livros, mas que até gostou de Billy Wilder e da sua adaptação do 'Witness for the Prosecution'. É a mulher que desafiou, sempre que necessário, os seus editores para poder escrever histórias como 'And Then There Were None', em lugar de escrever mais um dos policiais do seu Poirot que o público tanto apreciava.

Esta vida de Agatha Christie é aqui contada de forma muito coerente, bem humorada, emotiva e dramática quando é preciso, recheada de referências para quem conhece as suas histórias e a sua história, e particularmente inspiradora para quem admira a mulher por detrás dos títulos de 'Dame' e 'Rainha do Crime'. De forma simples e maravilhosa, os três autores conseguem homenagear de forma muito bonita a vida de Agatha, a sua obra e tudo o que criou e que, cem anos após a publicação da sua primeira obra (e de Poirot), 'The Mysterious Affair at Styles', continua a fascinar muitas gerações.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Peter Pan & Peter Pan in Kensington Gardens - J.M. Barrie


"All children, except one, grow up."
'Peter Pan', J.M. Barrie

É um clássico da literatura juvenil e uma das histórias mais conhecidas que a Disney adaptou ao cinema. 'Peter Pan' é, no livro que J.M. Barrie trouxe ao mundo, uma personagem bem mais negra do que a que conhecemos - e a sua vida ficcionada uma história dura, adulta e comovente como poucas histórias para crianças de todas as idades.

Peter Pan é o jovem que nunca cresce, que entra pela janela do quarto de Wendy Darling e dos irmãos em busca da sua sombra e muda para sempre as suas vidas. Leva-os a voar para a Terra do Nunca, onde lidera um grupo de rapazes 'perdidos', fala com fadas e depressa faz com que os convidados esqueçam o local de onde vieram, a sua história e a sua família. Wendy torna-se a 'mãe' de todos os rapazes, a que cuida deles em todos os momentos, e Peter o 'pai' que os leva a viver aventuras e a lutar contra índios e piratas como o Capitão Hook.

Nestas histórias de crianças há sempre bons e maus, o bem e o mal representados em certos estereótipos e personagens com as quais facilmente nos identificamos. Há também uma certa idealização dos pais e dos adultos como seres radicalmente diferentes das crianças, que não as compreendem, que não sabem o que é ser criança. Há maus da fita, como o Capitão Hook, e os bons que nunca se abandonam uns aos outros e lutam pela sobrevivência.

Mas há muito mais do que isso nestas aventuras que Peter Pan vive com os novos amigos e os meninos perdidos na Terra do Nunca: há por detrás delas um rapaz que nunca cresceu. Peter não é mais do que um menino mimado que odeia a figura materna, por a sua mãe o ter abandonado e substituído por outro menino; é egoísta, inconsciente e irrealista, só ouve e lembra aquilo que diz,;não conhece nada da vida - não sabe o que é um beijo nem entende o verdadeiro significado das coisas.

"They are the children who fall out of their perambulators when the nurse is looking the other way. If they are not claimed in seven days they are sent far away to the Neverland to defray expenses. I'm captain."

Se Peter esqueceu por completo a sua vida antes da Terra do Nunca, Wendy nunca quis ficar ali para sempre. Quando chegou a altura certa, quis regressar a casa, para junto dos pais, com os irmãos que já não se recordavam bem de ser crianças normais e com todos os novos irmãos que ganhou graças a Peter. Mas Peter nunca quis voltar, só ocasionalmente e enquanto lhe foi possível lembrar-se, por Wendy e por toda a sua linhagem de filhas e netas a quem foi dando a conhecer a sua residência permanente.

É, por isso, mais do que uma história para crianças recheada de aventuras, de bons e maus, de crianças felizes, uma história de falta de amor, escrita de uma forma descritiva mas intensa, com situações verdadeiramente tristes e perigosas, que terminam sempre deixando-nos a lágrima ao canto do olho.

Depois da intensidade da difícil vida de Peter Pan, por quem simpatizamos pela inocência típica do que é ser criança e nunca vir a ser adulto, a segunda história fica necessariamente aquém das expectativas, mostrando-nos a história de todos os que fogem de casa para visitar os Kensington Gardens e a do próprio Peter ao regressar a casa e ver que já era tarde demais. É uma espécie de prequela da obra original, igualmente negra e muito mais adequada a uma leitura adulta do que juvenil. Ainda assim, faz parte do imaginário de J.M. Barrie e é interessante conhecer melhor este mundo alternativo que criou.

Barrie eternizou em Peter 'Pan' - a palavra que vai para sempre caracterizar a eternidade da juventude, a capacidade de nunca ter de crescer e chegar à idade adulta - o seu irmão de 14 anos que morreu precocemente, e ao fazê-lo criou um amigo eterno para todas as crianças que, por o serem, precisam sempre de amigos e aventuras onde desenvolver a sua imaginação, de uma quantidade infinita de pó de fadas como a Sininho para poderem voar até onde a criatividade os levar. Temos de lhe agradecer esta capacidade de mexer com crianças e adultos de uma forma tão diferente e com uma sensibilidade tão própria dentro de cada um de nós.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Roald Dahl: os 100 anos do mágico da literatura infantil


As histórias e os livros infanto-juvenis de Roald Dahl são algumas das primeiras experiências de leitura que muitos recordam. Os filmes baseados na sua linguagem criativa e fantástica continuam a ser dos mais icónicos que uma criança pode ver nos seus primeiros anos de vida. O escritor da nossa infância – e de todas as infâncias, na verdade – faria esta semana 100 anos e a sua vida e obra são celebradas em todo o mundo, em todas as línguas e em cada uma das personagens mágicas e inesquecíveis que criou.

artigo completo em em maquinadeescrever.org :)