quarta-feira, 27 de julho de 2016

V de Vingança - Alan Moore e David Lloyd

Uma distopia em formato de novela gráfica. Talvez seja a melhor forma de descrever este 'V de Vingança' sem revelar pormenores do seu enredo criteriosa e magicamente criado por Alan Moore. Mais uma prova de que a banda desenhada é para todas as idades e pode ser um veículo perfeito para poderosas histórias de ficção com muito de verosímil.

Em 'V de Vingança', Inglaterra vive sob domínio de um regime totalitário, com câmaras que vigiam cada movimento das pessoas e organismos estatais que controlam tudo o que acontece no país. V, um anárquico anónimo que usa uma máscara, destrói todos os que, no passado, destruíram a sua vida, enquanto aos poucos procura fazer a revolução e inspirar uma jovem, Evey Hammond, a continuar a sua luta pela liberdade.

É uma realidade distópica e alternativa (dizer futurista não é propriamente correcto) aquela que argumentista e ilustrador retratam nesta banda desenhada. Não há liberdade individual nem de expressão, não há justiça nem respeito pelas pessoas. Quando V inicia a sua revolução - que é também pessoal -, a anarquia instala-se, tal como pretendia, o que aperta o cerco dos governantes mas também lhes retira credibilidade.

E era exactamente esta anarquia que pretendia, como conta muitas vezes a Evey, a jovem que de certa forma resgatou das ruas para fugir à prostituição, à demência e à ditadura fascista. Porque depois da destruição tem de vir sempre uma nova construção, de raiz, pelos que têm bom coração e sabem o que é melhor para o renascimento democrático de um país.


'V de Vingança' lembra muito o regime totalitário de '1984' e tem aquela capacidade de união e força, de identificação das pessoas e de incitação à revolta que lembra também 'Os Jogos da Fome'. Por muito que os países e regimes políticos em que vivemos não sejam ditatoriais como os descritos (ainda que possam já o ter sido no passado e haja actualmente, em outros lugares do mundo, ainda, regimes do género), conseguimos identificar-nos com esta necessidade de revolução e somos capazes de olhar à nossa volta de uma forma mais crítica em relação às condicionantes das nossas vidas.

Não será sempre esse o papel ideal da literatura - fazer com que nos apercebamos do que nos rodeia e com que olhemos a realidade com outros olhos?

O traço elegante mas de cores frias, verdadeiramente cru e cortante, de David Lloyd, transporta-nos igualmente para este mundo alternativo que podia acontecer em qualquer lado, em qualquer altura, e cuja verosimilhança nos deixa totalmente sem palavras a cada capítulo. É sem dúvida uma das obras essenciais de banda desenhada e obrigatória para quem gosta de quadradinhos mais sérios. 

sábado, 23 de julho de 2016

O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

"Cada um de nós, mesmo o mais pequeno e insignificante, viu a sua existência mais íntima revolvida pelas convulsões vulcânicas, quase ininterruptas, da nossa terra europeia; e, no meio dos numerosos outros, não consigo atribuir-me nenhuma primazia senão esta: a de, enquanto austríaco, enquanto judeu, enquanto humanista e pacifista, ter estado sempre exactamente no ponto em que estes abalos sísmicos mais se fizeram sentir."
O Mundo de Ontem - Stefan Zweig

Há uma expressão que vou para sempre associar a Stefan Zweig, à sua vida e à sua morte: a existência e a perda de uma "pátria espiritual" que ele próprio criou. 'O Mundo de Ontem' é o melhor título para ilustrar as memórias de um homem que nasceu num mundo feliz e despreocupado, onde quase de repente se tornou impossível viver e muito menos pensar em criar um mundo do amanhã.

Stefan Zweig nasce em 1881 em Viena, no auge de prosperidade do Império Austro-Húngaro e numa cidade culturalmente muito rica e activa. Tem uma educação privilegiada, viaja por toda a Europa enquanto jovem, conhece e torna-se amigo de muitas personalidades da época (com Rolland, Valéry, Freud, Rillke, Verhaeren etc.). 

Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, um sentimento patriótico em torno da vizinha Alemanha leva a população austríaca a unir-se mais que nunca. Zweig afasta-se das questões da guerra e torna-se pacifista, escrevendo inclusivamente sobre a necessidade de regressar à paz. Traduz muitas obras de e para o alemão, escreve alguns dos seus mais famosos ensaios e romances, e os anos do pós-guerra levam-no à crença de uma Europa unida, de uma paz impossível de se desestabilizar novamente.

A ascensão de Hitler na Alemanha, nos anos 30, no entanto, fá-lo entender que esta crença não passara de uma ingenuidade. Muda-se para Inglaterra e faz poucas e breves visitas à sua pátria, que em breve também deixará de o ser: os seus livros são proibidos na língua alemã, a Áustria é invadida pelo exército de Hitler e a II Guerra Mundial prova a toda a Europa que ainda não tinha chegado o fim da sua agonia. Pior, que estes anos de sofrimento seriam ainda mais intensos do que alguma vez o foram.

Relato estes passos da vida de Stefan Zweig apenas para ilustrar a sorte e o azar que teve, em simultâneo, de viver uma época historicamente tão rica, mas também tão sofrível. Poucos poderão dizer que viveram tanto, em tão pouco tempo, e de forma tão intensa como um homem das artes, um humanista e pacifista que acredita e confia na honestidade das pessoas, um judeu de família, um austríaco cidadão europeu. Não podemos imaginar nem uma pequena parcela do que viveu, embora estas suas memórias nos permitam entender perfeitamente os acontecimentos que criaram a sua personalidade e todos aqueles que lhe foram, aos poucos, destruindo a liberdade individual.

Por tudo isto, quando se exila no Brasil, em 1941, com a segunda esposa Lotte, não planeia regressar mais à Áustria, que agora o renega e à sua obra. Deixa de a ter como pátria física; é renegado, até, como cidadão austríaco. E da Europa leva apenas a saudade de um passado e a ilusão de uma pátria espiritual que existiu em tempos, num continente de livre circulação, de liberdade de pensamento e liberdade de expressão. Este mundo que ontem era, hoje já não o é. Desapareceu, como toda a vida que conhecera antes daquele momento.

"Se havia arte que tínhamos de aprender de novo, nós, os perseguidos e desalojados daqueles tempos hostis a qualquer arte e a qualquer coleção, essa era a arte de dizer adeus a tudo o que tinha sido outrora o nosso orgulho e o nosso amor."

Nas antigas pátrias deixa uma grande parte do que construíra e coleccionara ao longo de uma vida inteira: objectos que pertenceram a grandes personalidades que admirava e coleccionava; os seus livros e outras obras que estavam na sua posse; enfim, todos os pertences que estimava e que o exílio não permitira transportar para um local tão longínquo como o transatlântico Brasil. Os seus meses em Petrópolis, perto do Rio de Janeiro, são por isso sombrios, depressivos e sem qualquer humanidade a que se agarrar.

Para a escrita deste 'O Mundo de Ontem', livro autobiográfico e de memórias, o homem que outrora fora um dos autores mais aclamados da Áustria e da língua alemã pôde apenas utilizar e basear-se, precisamente, na sua própria memória. Tudo o que escreve pode ser enviesado pela distância temporal e pela opinião que tem de si mesmo (perante si e perante os outros). Não deixa, no entanto, de ser um exercício de memória muito emotivo e um notável relato histórico da época que viveu.

E se 'O Mundo de Ontem' não é historicamente perfeito, é-o, pelo menos, como obra literária - e como memória de um homem muito interessante de conhecer de forma tão íntima. A sua escrita, como nas obras de ficção, é mais do que um simples relato de uma história: é uma construção narrativa carregada de sentimento, de um humanismo contagiante, de uma nostalgia única. Conhecer Stefan Zweig, aqui, é ler tanto a história macabra da maldição das suas peças de teatro quando (quase) levadas à cena, como também os últimos dias da mãe na Áustria antes de Hitler ter invadido o país e procurado os judeus para eliminar a sua presença da Europa.

Por outro lado, é também levar-nos, enquanto leitores interessados e apaixonados, mais de 70 anos após a sua morte, a descobrir mais sobre este homem, as suas emoções e intenções, a sua vida mas também a sua morte. Porque em 1942 acreditava-se que Hitler não pararia pela Europa e Zweig temia que o sol, o calor e a beleza de um Brasil turístico e despreocupado fossem destruídos para sempre por este homem que queria conquistar o mundo. E ele, Stefan Zweig, o que seria depois disso? Aos 60 anos, continuaria a fugir? Como poderia reconstruir novamente e eternamente a sua vida, criando um mundo de amanhã que se pudesse assemelhar, o mínimo possível, ao mundo de ontem que já não existia?

Em Fevereiro de 1942, Zweig e a sua esposa põem fim à vida na sua casa de Petrópolis, onde nos últimos cinco meses o autor e o homem que neste livro se nos dá a conhecer compôs nostálgica e melodicamente um relato escrito das suas memórias. Para ele não havia outro destino possível, depois de ter perdido praticamente tudo o que a sua vida procurara construir. Para nós, que o lemos hoje, não há forma melhor de nos continuarmos a apaixonar pela sua existência e pela sua obra do que com este inesquecível 'O Mundo de Ontem'.


Outras leituras de Zweig:

sábado, 9 de julho de 2016

O Segredo dos Seus Olhos - Eduardo Sacheri

"Era inveja. O amor que aquele homem tinha vivido despertava-me uma enorme inveja, para lá da piedade que me suscitasse a tragédia em que esse amor acabara por naufragar."
'O Segredo dos Seus Olhos', Eduardo Sacheri

Uma das maravilhas adquiridas este ano na Feira do Livro de Lisboa, porque estava mesmo na altura de recordar esta história. Quando comecei a lê-lo ainda durante a feira, em longas tardes passadas à sombra das árvores na bonita relva do Parque Eduardo VII, sabia que ia voltar a emocionar-me com a investigação de Chaparro e a rever cada frame do filme à medida que a história se ia revelando.

Em 1968, Benjamín Chaparro, vice-secretário de um tribunal de instrução na Argentina, fica encarregado da resolução de um caso de homicídio de uma jovem mulher que deixou um marido de coração partido. Entre o dia-a-dia de Chaparro no tribunal, o seu amor quase platónico por uma mulher e a busca infrutífera do assassino pelo marido da vítima, Ricardo Morales, passam 25 anos sobre o início do caso. A reforma de Chaparro leva-o a escrever um livro sobre toda esta investigação e a revistar as provas, os acontecimentos e esta paixão antiga que se mantém bem presente.

"É porque pela primeira vez sabe que hoje sim, sem falta e sem demora, tem de ir bater à porta do gabinete; ouvir a voz dela a dizer-lhe que entre; plantar-se como um homem diante da mulher que ama; ignorar a pergunta trivial que os lábios dela soltam quando o recebem a sorrir; pagar, ou cobrar, a dívida que tem pendente e que é o único motivo válido que encontra para continuar a viver. Porque Chaparro precisa de responder àquela mulher, de uma vez e para sempre, a pergunta dos seus olhos."

'O Segredo dos Seus Olhos' é a história de Chaparro e Irene, do seu amor impossível e afastado pelo tempo e pela vida; dos olhos dela, que tanto parecem dizer, e dos olhos dele, que tanto gostavam de poder e saber colocar em palavras aquilo que sentem e o segredo que encerram. Mas é também a história do amor possível vivido por Morales, interrompido abrupta e injustamente por um assassino frio e cruel, que lhe levou para sempre a Liliana que os seus olhos deixaram de poder voltar a contemplar e passaram apenas a registar pela memória dos melhores anos da sua vida passados a seu lado.

O amor de Ricardo Morales, a sua dedicação primeiro à esposa e, após a sua morte, ao desvendar do caso da sua morte, é verdadeiramente tocante - pelos pormenores, talvez até mais do que o filme nos permite entender. No entanto a dimensão visual do filme, a ausência de informação e descrições das acções, tornam-no mais eficazmente emotivo, tocando os temas e a história do livro de forma ainda mais sensível, verdadeira e crua.

Num e noutro, há um peso na consciência e uma emoção que não se conseguem conter, sobretudo na leitura e na descoberta cinematográfica do desfecho totalmente imprevisível (ainda que com pormenores diferentes entre as duas linguagens culturais). 

São dois homens com duas paixões inspiradoras, que Eduardo Sacheri criou e escreveu de forma bastante interessante, e que no cinema atingem o seu expoente máximo de expressão (a todos os níveis). Sem dúvida uma leitura pouco adequada a passeios de Verão, mas muito relevante para entendermos um pouco melhor a vileza da natureza humana, o poder do amor e sobretudo, na lição de Chaparro, que nunca é tarde para se ser feliz.

"Quando posteriormente me contou com luxo de detalhes tudo o que acontecera nesse pequeno-almoço, não o fez como o comum dos mortais, que procuram reconstruir a partir de vestígios quase ilusórios, ou a partir do que recordam fragmentariamente de outras ocasiões similares, situações ou sensações que perderam para sempre. Morales não. Pois sentia que ter Liliana era uma felicidade abusiva, que nada tinha que ver com o que fora o resto da sua vida. E que, tal como o cosmos tende para o equilíbrio, mais tarde ou mais cedo ele teria de perdê-la para que as coisas voltassem à sua ordem devida. Cada uma das suas recordações com ela tingia-se dessa sensação de naufrágio iminente, de catástrofe ao virar da esquina."

sábado, 11 de junho de 2016

A Casa da Morte Certa - Albert Cossery


"A casa estava tão desamparada nos seus mais pequenos recantos que, para além dos elementos exteriores que fomentavam a sua ruína, encerrava em si mesma o gérmen do seu desabamento. Nada o podia deter na sua metódica e vertiginosa destruição."
'A Casa da Morte Certa, Albert Cossery

Há um ano que aguardava este primeiro encontro com Albert Cossery, na expectativa de que fosse mais um dos autores da interessante vaga existencialista. É, no entanto, mais do que isso: faz-nos ver a inevitabilidade e a falta de importância dada às coisas relevantes, mas também nos leva a pensar, a revoltar, a agir. A saltar das páginas do livro para olhar à nossa volta e tentar compreender um pouco melhor o mundo que nos rodeia.

Na casa da morte certa, os seus habitantes vivem na pobreza, em condições miseráveis, com apartamentos degradados e um senhorio que não quer saber deles e dos seus problemas, não assumindo inclusivamente a responsabilidade pelas necessárias obras que a casa precisa para evitar o seu desabamento. E eles aguardam, uns desinteressados, outros procurando uma solução concertada junto do senhorio ou de outras entidades, na expectativa de salvar a casa e as suas vidas.

"Não tinham vontade de se levantar, nem de fazer o mais pequeno gesto. Sentiam-se aprisionados no seu destino e banidos para sempre do resto do mundo. A casa poderia ruir: ela encontrá-los-ia prontos para o supremo sacrifício. Para quê moverem-se, se tudo deve, por fim, cair no vazio da morte?"

Entre os habitantes desta casa perdida no Egipto encontramos vários trabalhadores de rua - vendedores de alfaces, carroceiros, domadores de macacos -, árabes, pobres, sem esperança e sem espírito de equipa. Todos partilham um certo egoísmo (natural do ser humano, é certo, mas nem sempre tão vincado) que os desresponsabiliza e afasta dos problemas comuns, seja por desinteresse, seja por vaidade.

Mais mesquinho, egoísta e pobre (de espírito!) que todos eles, o senhorio Si Kahlil, rico e cheio de esquemas, ignora todas as tentativas dos inquilinos de salvarem a sua casa da morte certa. Apesar das muitas diferenças que os afastavam uns dos outros, procuram unir-se contra este homem e contra a sua atitude silenciosa e inerte perante a sua desgraça. Este espírito de equipa, de revolta e de vingança marca também, de certa forma, esta obra de Cossery, ainda que na verdade representem mais uma questão de palavra do que de acto.

"Não havia como a noite para os pobres. Só nela se sentiam eles próprios e podiam esconder a vergonha da sua agonia."

Se a casa tem a morte certa, os homens e as mulheres que a habitam também. E aos poucos vão revelando estas suas atitudes mesquinhas, talvez pela proximidade da morte, talvez pelo medo de perderem tudo. E por isso não confiam nunca plenamente uns nos outros, desconfiam sempre das suas ambições pessoais.

Diz-se que foi esta ambição, causa de todas as desgraças do mundo, que Cossery quis aqui retratar no seu sentido filosófico, face àquele que apenas quer da vida os simples prazeres da existência. Daí a veia existencialista, daí a aceitação das coisas como são, sem grandes exaltações. Mas em Cossery há de facto muito mais do que isso: há revolta nas almas e nos corações, há essa ambição desmedida no peito de cada um destes habitantes. E há uma insuficiência suficiente de força de vontade e de revolução que faz tudo terminar quase como começou.

"As crianças dormem tranquilas. Nunca se queixam. O homem esse queixa-se porque percebe que é um escravo. Procura sair disso grita debate-se mas nada acontece. As crianças são a força que se erguerá um dia da lama dos bairros populares. Uma força imensa e explosiva que nada mais poderá deter. Vinda do fundo das vielas submergirá as praças e as avenidas. Rebentará como um mar tempestuoso atingindo desta forma o rio as ilhas adormecidas no esplendor dos palácios. Aí deter-se-á por fim. Respirará vigorosamente. Terá atingido o seu objectivo."

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Os Cadernos de Pickwick - Charles Dickens

"O sol, pontual servidor de todos os trabalhos, acabava de nascer e começava a alumiar a manhã do dia treze de Maio de mil e oitocentos e vinte e sete, quando Samuel Pickwick se ergueu, tal outro sol, dos seus sonhos, abriu de par em par a janela do quarto e espreitou o mundo em baixo."
'Os Cadernos de Pickwick', Charles Dickens

Prendas de anos que não podiam ser mais bem escolhidas. Um verdadeiro presente pickwickiano - recheado de aventuras sem sair do sofá, mas que nos enchem o coração e nos fazem rir e chorar por mais a cada fascículo novo. Charles Dickens conquistou-me com estes pequenos cadernos humorísticos, o Sr. Pickwick e as viagens com os seus amigos.

Pickwick e os pupilos e amigos Tupman, Snodgrass e Winkle, membros do clube ao qual o primeiro dá nome, passam os dias a viajar pelo interior de Inglaterra em busca de conhecer melhor não só os locais, mas também as pessoas que neles habitam. Fazem assim descobertas científicas e do comportamento humano, conhecendo personagens muito características, vivendo situações muitas vezes ridículas e tornando as viagens, mais que 'profissionais', muito pessoais.

"Poucos momentos haverá na vida de um homem que se possam comparar, na experiência do sofrimento ridículo e de uma proporcional falta de compaixão e caridade, à corrida atrás do próprio chapéu."

Estas aventuras são relatadas com muito humor, desde o Sr. Pickwick atrás do seu chapéu às paixões dos seus amigos por donzelas que vão conhecendo; do episódio que os aproxima a todos da prisão às trapalhices do pai do Sr. Weller; do Sr. Jingle que não consegue construir uma frase sem reticências e com mais de 5 palavras seguidas... aos partidos distintos de Eatanswill.

Quando um livro e um autor têm, sozinhos - com os devidos créditos aos leitores que os celebrizam -, a capacidade de tornar as acções das suas personagens características, ao ponto de serem tomadas como referência sempre que alguém tem as mesmas acções, sabemos que estamos perante uma das grandes obras do século XIX! É o que acontece com Samuel Weller e a sua peculiar forma de se expressar: sempre utilizando comparações engraçadas e metáforas no seu discurso.

Apesar de muito descritivos, estes 'Os Cadernos de Pickwick' são também bastante dialógicos: há sempre acção, aventuras a acontecer, discursos elegantes a ser ditos, expressões curiosas a ser utilizadas. E tudo isto torna a leitura, apesar de densa e longa (são mais de 900 páginas!!), muito interessante e rápida, a par dos belos desenhos que vão ilustrando as aventuras vividas pela trupe.

"-Não acham extraordinária a impressão de que é nosso destino entrar em casa de toda a gente para os meter em qualquer espécie de sarilho?"

Se ao longo dos fascículos - sim, que isto não foi escrito como uma obra só, mas sim como pequenas histórias em fascículos - o Sr. Pickwick é frequentemente caricaturado nos relatos das viagens, pela forma inevitável e inesperada como é apanhado em situações estranhas e duvidosas, é ao mesmo tempo o mais perspicaz, sensível, compreensivo, humilde e sensato de todos eles.

À sua volta as personagens exageram, representam classes sociais, mostram características do local e das pessoas que conhecem, são conservadoras ou desrespeitam-se umas às outras. E o Sr. Pickwick é sempre a pessoa que mete ordem na casa, que explica como as coisas devem ser, o que está certo e o que está errado, elevando a sua voz e mostrando aos outros o que de melhor se encontra nos seus corações.

As personagens não mudam necessariamente ao longo da obra, antes descobrimos lados seus que desconhecíamos inicialmente. E vamo-nos aproximando delas, cada vez mais, à medida que se nos vão mostrando boas, apaixonadas e "pickwickianas", no que de sarilhos e humildade a expressão encerra.

Tanto Sam como Pickwick são absolutas revelações nesta obra e sem dúvida as personagens que me fazem querer voltar a estas páginas. Recomendarei a todas as pessoas, porque acredito que há um pouco de cada uma destas personagens em nós, e isso torna a leitura muito mais interessante, rica e memorável - e a descrição da sua leitura uma tarefa quase impossível :)

terça-feira, 10 de maio de 2016

Chernobyl: A Zona - Bustos e Sánchez

Novelas gráficas com cunho jornalístico. Havia muitas formas de descrever e homenagear as vítimas da explosão nuclear de Chernobyl, 30 anos depois. Mas poucas conseguiriam fazê-lo de forma tão simples e sentimental como esta banda desenhada negra, crua e introspectiva.

'Chernobyl: A Zona' segue uma família em três gerações - e os efeitos que Chernobyl teve nas suas vidas. Leonid e Galia vivem perto da central nuclear, acabam por ser obrigados a abandonar a zona quando as aldeias mais próximas são evacuadas devido às fortes radiações, mas regressam anos depois à sua casa e voltam a cultivar num terreno altamente infectado, como alguns resistentes que não quiseram morrer longe de casa. A filha, Anna, perde o marido na explosão e, grávida, tem também de encontrar uma nova vida com o filho Yuri e Tatiana, a criança que carrega, longe de tudo o que sempre conheceu. Anos depois é Yuri que regressa a Chernobyl com a irmã, ela em busca de saber mais sobre o passado, ele de reencontrar de alguma forma a infância perdida.

O Fantástico Sr. Raposo - Roald Dahl

"Quero que saibam que, se não fosse o vosso pai, agora estávamos todos mortos. O vosso pai é um raposo fantástico."
'O Fantástico Sr. Raposo', Roald Dahl

Prendas que também são prendas para quem as oferece. Não é tão bom quando isso acontece? 'O Fantástico Sr. Raposo' é uma obra infantil que devia estar em todas as estantes do mundo, sejam crianças ou crianças grandes (todos o somos um bocadinho, mesmo que adultos). Por isso tenho-o na minha, emprestado, para quem o quiser folhear e sorrir em qualquer tarde chuvosa.

Obra do maior contador de histórias de todo o mundo, Roald Dahl, este pequeno e simples livro conta a história do Sr. Raposo, que vive com a sua mulher e os quatro filhos raposinhos debaixo da terra. Apenas sai do conforto da sua casa para se alimentar: rouba galinhas e outros alimentos das quintas dos maiores patifes da região: Boggis, Bunche e Bean. Ao quererem apanhá-lo em flagrante e destruir a sua família, o Sr. Raposo tem de ser mais rápido e inteligente do que eles, pelo que engendra um plano para os salvar.

Amok e Carta de uma Desconhecida - Stefan Zweig

"- Amok?... Creio recordar-me... é uma espécie de embriaguez... entre os malaios.
- É mais do que embriaguez... é loucura, uma espécie de raiva humana, literariamente falando... uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcoólica não se pode comparar."
'Amok', Stefan Zweig

É muito fácil deixarmo-nos conquistar pela escrita espontânea e sentida de Stefan Zweig - e então quando já fomos anteriormente conquistados, a sua sensibilidade, a emoção e a fluidez dos seus relatos sempre tão pessoais não cessam de nos apaixonar. Esta aquisição em segunda mão não podia ter sido mais profícua: um verdadeiro 'leve 3 pague 1' inesquecível.

'Amok' é a primeira história que o autor nos dá a conhecer nesta edição. Como é habitual em Zweig, trata-se de um relato de vida, contado por um homem nervoso que se esconde de todos num navio a caminho da Europa, a um desconhecido que anos depois nos dá conta desta conversa confidencial. O homem, médico, foi abordado por uma senhora com uma solicitação médica muito sensível, que inicialmente desvalorizou. No entanto, ao querer ajudá-la, apercebe-se de que nada pode fazer para voltar atrás no tempo, apenas pode tentar com todas as suas forças preservar o orgulho desta mulher.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Mataram a Cotovia - Harper Lee

"As cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós. Não estragam os jardins das pessoas, não fazem ninhos nos espigueiros, só sabem cantar com todo o sentimento para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia."
'Mataram a Cotovia', Harper Lee

Andava há anos para lê-lo e ainda não tinha tido a coragem de me aventurar. Às vezes é preciso coragem para nos deixarmos levar por histórias densas, educativas e especiais como esta. No ano da morte de Harper Lee, não quis deixar de conhecer a Scout e a sua família, os episódios do seu crescimento e as aventuras que fizeram dela a mulher que conta a história na primeira pessoa.

Em Maycomb não se matam cotovias, pois tal seria injusto. Mas quando Atticus, pai de Scout e do seu irmão Jem, é escolhido para defender Tom Robinson, um negro acusado de violar a filha de uma família branca da região, muitos se viram contra ele. Dos longos verões de Scout com o irmão e Dill, o amigo que os acompanha sempre nas incursões de descoberta da casa dos Radleys e do rapaz que nunca ninguém vê, Boo... todos crescem para compreender o papel de Atticus como advogado da justiça e da inocência, mesmo que apenas aos seus olhos de crianças.

sábado, 9 de abril de 2016

And Then There Were None - Agatha Christie

"It's not an accident - that's what I say. It's part and parcel of the whole business. It's all bound up together.
'And Then There Were None', Agatha Christie
Em 1939, tinha início a II Guerra Mundial e Agatha Christie colocava numa ilha quase deserta 10 indefesos "soldados" num dos mais conhecidos livros de mistério que escreveu. 'And Then There Were None" é um extraordinário exercício criativo de construção de uma assassínio em massa cujo assassino está no meio deles, mas não desliza uma única vez.

São 10 pessoas que não se conhecem, atraídas por motivos diversos para a Soldier Island por um misterioso U. N. Owen, que desconhecem também, e que não aparece para os receber. Depois de, no primeiro jantar na casa da ilha, todos serem acusados de contribuir para a morte de 10 outras pessoas sem serem julgados por isso, assistimos às suas mortes de acordo com um poema popular que descobriram nos seus quartos, até não sobrar nenhum para contar a história.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O Caminho Fica Longe - Vergílio Ferreira

No centenário de Vergílio Ferreira e 20 anos após a sua morte, a Quetzal lançou uma nova edição do primeiro livro do autor, escrito em 1939 e publicado em 1943, cuja primeira edição foi apreendida pela censura. 

'O Caminho Fica Longe' é o despertar do romancista em Vergílio Ferreira, aos 23 anos, ainda sem querer apegar-se a uma corrente de escrita específica, mas começando já a sentir- se a presença de duas ideias características da sua obra: uma preocupação neo-realista e um pensamento existencialista muito próprio.

(Meu Deus, que tentação! Afinal, amo-o, amo-o muito! Cada um tem no mundo um caminho só. E só esse caminho tem estrelas e lua e cores… Deus faz as almas aos pares” (p.89)

Crítica completa em maquinadeescrever.org :)

domingo, 6 de março de 2016

Brideshead Revisited - Evelyn Waugh

"He did not fail in love, but he lost his joy of it, for I was no longer part of his solitude. As my intimacy with his family grew, I became part of the world which he sought to escape; I became one of the bonds which held him."
'Brideshead Revisited', Evelyn Waugh

Ver capas também pode ser ver corações. É o caso desta maravilhosa edição de 'Brideshead Revisited', cuja história já conhecia mas que ainda não tinha tido o prazer de ler. Obrigada à Fyodor Books por me ter feito cruzar com ela e conhecer mais de perto a história de Charles Ryder e da sua ligação perpétua a Brideshead.

Charles Ryder e a sua companhia militar são destacados para um novo local, a Marchmain House - uma casa nada desconhecida para Charles. As recordações assombram-no quando chega a Brideshead, desde a primeira vez que lá entrou, com o novo amigo Sebastian Flyte, ao dia em que a pisou pela última vez. Através das memórias da sua vida, tomamos contacto com a sociedade dos anos 20, a vida universitária boémia de Oxford, o aproximar da guerra, o catolicismo e conservadorismo aristocráticos e a luta de um indivíduo para encontrar o seu lugar no meio desta vida a que parece não pertencer.

"'Oh, my darling, why is it that love makes me hate the world? It's supposed to have quite the opposite effect. I feel as though all mankind and God, too, were in a conspiracy against us.
'They are, they are.'
'But we've got our happiness in spite of them; here and now, we've taken possession of it. They can't hurt us, can they?'
'Not tonight; not now.'
"

Nestes anos 40, em que revisita o passado eternamente ligado a Brideshead, Charles assume-se como "homeless, childless, middle-aged and loveless", como se nos últimos 20 anos não só o tempo, mas também a vida, lhe tivessem roubado a juventude.

Conhecer Sebastian foi conhecer os seus amigos de Oxford, embebedar-se de manhã à noite e viver cada dia como se fosse o último, muito à moda dos loucos anos 20. Foi pisar os campos de Brideshead, mas também conhecer Veneza, viver em Paris e descobrir a sua verdadeira vocação de pintor arquitectónico. E foi, sobretudo, conhecer a religiosa e preponderante Lady Marchmain e a vida aristocrática e regrada daquela casa, que marcaram o início do fim da sua vida tal como a conhecera.

Se a primeira parte deste romance é idílica, paradisíaca, livre, feliz, como aquele longo verão que Sebastian e Charles viveram sozinhos em Brideshead, a segunda e a terceira caminham inevitavelmente para uma decadência anunciada nesta preponderância da família de Sebastian, que o fazem tornar-se alcoólico e querer afastar-se para sempre da casa familiar. Ryder é apanhado no meio disto tudo e vive-o na primeira pessoa, daí ser interessante acompanhar primeiro a sua aproximação a Lady Marchmain, a Julia e a Cordelia (irmãs de Sebastian), depois o afastamento de Sebastian do melhor amigo, quando consumido pelos quereres e pela austeridade da sua família.

A relação entre Sebastian e Ryder é ainda hoje tema de debate, mas a típica familiaridade entre os homens da época pode explicar a grande amizade que têm um pelo outro. Ainda assim, a aproximação mais tardia a Julia é sem dúvida uma reaproximação a Sebastian, ainda que venha a descobrir que as diferenças entre eles são mais fortes do que inicialmente pareciam. Em Julia encontra o melhor e o pior dos Marchmain: a busca constante de se distanciar das regras da família e seguir o seu coração, mas com uma corrente imaginária a prendê-la para sempre ao que a mãe e Deus esperam dela.

"For in this, to me, tranquil time Sebastian took fright. I knew him well in that mood of alertness and suspicion, like a deer suddenly lifting his head at the far notes of the hunt; I had seen him grow wary at the thought of his family or his religion, now I found I, too, was suspect. He did not fail in love, but he lost his joy of it, for I was no longer part of his solitude. As my intimacy with his family grew, I became part of the world which he sought to escape; I became one of the bonds which held him."

A forma como Ryder relata este seu passado em Brideshead demonstra a queda de uma noção de sociedade que as próprias guerras vão destruindo, indicando uma nostalgia intrínseca a esta aristocracia, de um tempo que já lá vai - tal como a juventude a beleza hedonistas. 

E depois, o Catolicismo, que aqui surge tanto em forma de Igreja como de fé, cada uma com as suas peculiaridades. Na morte que está em todo o lado, mesmo no paraíso ("et in arcadia ego", a perda deste mesmo paraíso). Na conversão dos não crentes para poderem casar ou ser aceites na família. Na censura de actos menos próprios por parte dos protagonistas, na impossibilidade da felicidade pelo desrespeito à religião, no poder de uma educação fortemente católica.

Ryder vive tudo isto, condenado desde o início a nunca encontrar o seu lugar naquele meio, mas ao chegar a Brideshead, 20 anos depois, apercebe-se também, numa perspectiva arquitectónica e até religiosa da coisa, como a sua vida estará para sempre ligada à história daquela casa e às pessoas que nela viveram. A conversão tardia do autor ao catolicismo pode explicar esta identificação com a espiritualidade que o protagonista parece enfrentar, no entanto é posterior à sua necessidade de conciliação com fé que podia ter mudado totalmente o rumo da sua vida.

Evelyn Waugh é daqueles autores que, depois de lermos pela primeira vez, vamos sempre querer revisitar, como este passado em Brideshead, seja em novas leituras ou na releitura de clássicos como este. Tornou-se, num ápice, um dos meus livros favoritos de sempre, pela forma subtil como é narrado e a intensidade com que cada memória de Ryder é lida e tomada como nossa.